José Paulo Pereira
Ver o meu perfil completo

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Avulsos 17: «Câmara Clara» sobre o auto-retrato e a auto-representação


















O programa Câmara Clara é um expositor vivo, uma interessante e inteligente forma de divulgação de obras da cultura portuguesa, na sua relação com as obras de culturas de carácter mais ou menos transnacional. A última sessão foi dedicada ao auto-retrato e à auto-representação, e contou com a presença de Jorge Molder, cuja obra foi já objecto de inúmeras leituras, com particular destaque para a de Delfim Sardo, no volume da editora Caminho que lhe é dedicado, bem com a presença de Paula Morão, cujo campo de investigação tem estado relacionado com aquilo a que chama «escritas do eu». Para além dessas presenças, pôde contar-se também com a intervenção de Bernardo Pinto de Almeida, autor a que já aqui fizemos várias vezes referência, neste blogue, e que é talvez o nome mais conhecido da teoria e da crítica das artes visuais entre nós, a propósito do auto-retrato em pintura (cuja origem, no que toca ao auto-retrato pintado como género independente e de pleno direito seria o de Las Meninas, de Velázquez).

De muito se falou: dos auto-retratos pintados de Bacon, Courbet, Cézanne, Gauguin, Van Gogh, James Ensor, Velázquez, Rembrandt, A. Dürer, Mário Dionísio (na Casa da Achada), Andy Warhol, ou dos (auto-)retratos literários de Carlos de Oliveira, Ruben A, Mário Dionísio, James Joyce, Samuel Beckett de entre outros, assim como da recusa de Cindy Sherman da necessária autorização da utilização das imagens de sua obra numa rubrica consagrada ao auto-retrato; da interessante ideia de Bernardo Pinto de Almeida de que o auto-retrato terá começado, como género independente, com Velázquez, e com a interrogação da crença na natureza divina do homem: o auto-retrato testemunharia e «produziria», assim, o homem como «existente»; de auto-representação e de violência (Bacon) ; do ensaio de Milan Kundera, sobre Bacon; das «situações de suspensão» presentes na obra de Jorge Molder e da irredutibilidade dos efeitos do tempo nas suas situações/personagens fotografadas; dos «programas operacionais», segundo a designação de Jorge Molder e dos «acontecimentos» da arte que determinam a sua alteração; da auto-confessada influência de Ana Hatherly na sua obra; de Manuel Gusmão, Maria Velho da Costa, Manuel Alegre; do Montaigne dos Essais, das Confissões de Santo Agostinho e de A Vida de Henri Brulard de Stendhal, para dizer que nenhuma «verdade» existe ou é veiculada nas obras relacionadas com «a escrita do eu». Vale a pena ver, com atenção. Nada melhor, por isso, do que ouvir e ver a gravação disponível no respectivo site:

http://camaraclara.rtp.pt/#/home/

segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

Fragmentos de Leitura 19: (os antecedentes) do auto-retrato - algumas notas (de Herrade de Landsberg a Albrecht Dürer)



















Auto-retrato no túmulo do
arquitecto egípcio Senmout,
da XVIIIª dinastia,
servidor
da rainha Hatchepsout
.

I - 1. Valeria a pena regressar a algumas das observações que se fazem em Fragmentos de Leitura 17: Acerca do (auto-)retrato I (entre a Besta de Lascaux e a arte contemporânea: nota 1), publicado aqui no blogue. Na sua obra sobre o auto-retrato, Omar Calabrese lembra que, embora aquilo que hoje designamos por auto-retrato tenha tido a sua origem no século XV (preciamente com o «cripto-retrato» ou o retrato «in assistenza») e se tenha tornado, gradualmente, no decurso dos séculos XVI e XVII, num género autónomo, há também exemplos de auto-representação nas culturas quer antiga, quer medieval.

Os exemplos que apresentamos abaixo são apenas dois, de entre os possíveis, de auto- representação na Idade Média - primeiro o detalhe de uma gravura de Herrade de Landsberg e, a seguir, um auto-retrato esculpido de Mestre Matteo. Outros exemplos, mais remotos, seriam ainda possíveis (na estatuária egípcia, por exemplo, como o mostra a estátua de Senmout, arquitecto egípcio da XVIIIª dinastia, na primeira imagem, aquela com que este «post» abre, ou na ilustração de vasos e na estatuária grega).

2. Há de resto, vários relatos antigos, que nos dão conta da sua ocorrência. O relato de Plínio, o Velho, acerca das estatuetas daqueles que, com três ou mais de três vitórias nos jogos, tinham nelas direito à reprodução das suas feições. As restantes estatuetas seguiam uma forma genérica. Ou o relato de Plutarco, acerca do escândalo provocado pela decisão de Fídias de inscrever a sua figura numa das esculturas públicas que realizou. Haveria, mais tarde, além disso, na cunhagem de moedas romanas, muitas vezes a reprodução, em perfil ,da figura dos benfeitores das cidades, como forma de reconhecimento e comemoração do seu gesto e da sua generosidade. Ora, tratar-se-ia aí, verdadeiramente, de «auto-retratos»? É interessante essa questão, - e seria útil pensar um pouco neste ponto, fazendo-o, evidentemente, com a ajuda de Calabrese - para tentar compreender melhor o que aí estará em jogo.



















Herrade de Landsberg - Detalhe de
gravura em cobre (48,5 x 38,5) -
Hortus Deliciarum
, século XII.

3. Seria então preciso começar por lembrar, de uma maneira geral, as condicionantes (de carácter filosófico, sócio-cultural e mesmo económico) que terão inibido a instalação, mais cedo na história do Ocidente, do auto-retrato enquanto género autónomo. Certamente, não apenas escultores, mas também, copistas, gravadores, iluminadores, arquitectos e pintores expressaram o que se poderia considerar, à primeira vista e em retrospecção, como a vontade de afirmação da sua «identidade». De resto, como consideram alguns dos especialistas actuais dessas culturas antigas, não era por falta de saber, nem por ausência de meios técnicos para a reprodução segundo o critério do semelhante, que essa auto-representação não se instituía. Que condicionantes aí intervinham?

Como lembra Calabrese, nem: a) a secundarização antiga e medieval do trabalho manual em geral (condicionante sócio-cultural, digamos), em relação ao trabalho intelectual ou espiritual, nem b) o relativo descrédito do trabalho remunerado (esse descrédito cujos ecos podemos reencontrar, ainda, na Crítica da Faculdade do Juízo de Kant, quando este nos fala das «artes mercenárias», separando-as da arte propriamente dita), em relação às actividades artísticas pressupostas como de livre decisão, nem finalmente c) (na Idade Média, tal como já em Platão) a secundarização da relação com o mundo «ilusório» dos sentidos (condicionante filosófica), nenhuma destas razões lhes permitiriam uma afirmação da sua singularidade enquanto artistas, como viria a acontecer, pouco a pouco, a partir do Renascimento e, sobretudo, até ao Romantismo, época em que, finalmente, essa reprodução da qualidade individual (e da diferença subjectiva) se impõem na sua plenitude. Na Idade Média diz, por exemplo, Calabrese: «não importa que trabalho manual pode ser considerado como uma forma de penitência».



















Portal da Glória, na Catedral de Saint-Jacques-de-Compostelle, com um Auto-retrato de Mestre Matteo, terminado em 1128.

4. Na Idade Média não há, por conseguinte, ainda «artistas» na acepção que viriam a dar-lhe as modificações ocasionadas pela evolução histórica que se inicia no Renascimento: há «artesãos». Além disso, mesmo ainda no começo do Renascimento, uma obra feita por uma única pessoa teria ficado por um preço exorbitante, como assinala Calabrese - o que seria ainda um outro tipo de condicionante, desta vez económica. E no fim de contas, sabia-se que essas obras de arte eram produzidas em oficinas, o que tornaria a sua assinatura numa marca de fabrico, no sinal de um modo de fazer ou de um estilo de execução, mais do que uma marca autográfica de subjectividade. Essa assinatura não é aí, pois, autográfica, embora seja, de qualquer forma, um signo de atribuição.

5. A auto-representação, observa Calabrase, situa-se ainda no âmbito de um conceito de identidade que, herdado da Lógica de Aristóteles, não coincide, afinal, com o conceito moderno que é ainda o nosso. Daí, por exemplo, os retratos de «identidade genérica», como lhes chama Omar Calabrese. Um exemplo: o de uma das gravuras de Herrade de Landsberg, «superiora do mosteiro de Hohenburg, [que] deixou mais de seiscentas e trinta e seis miniaturas explêndidas no seu Hortus Deliciarum; uma de entre elas, que apresenta a comunidade, traz à margem a sua efígie, destacada da sua descrição» (CALABRESE, Omar, L'Art de l'autoportrait, op. cit., p. 44), precisamente aquela que aqui mostramos.
















Pieter Brueghel, o Velho, A Dança do Casamento, 1566.

II - 1. Ora, o «retrato de identidade genérica» é, na terminologia usada por Calabrese, precisamente aquele que afirma a «identidade específica» do retratado. Quer isto dizer, aquele que põem em contacto um determinado ente, na sua particularidade, com a «espécie» a que «pertence» e a que, por isso mesmo, é identificado como sendo um dos seus exemplares. Para esse tipo de identificação, o recurso é o apagamnto dos traços individuais em favo dos que são comuns a todos os exemplares da espécie. No caso da imagem de Herrade de Landsberg pode observar-se que, uma mesma figura, cujo formato é relativamente padronizado, é repetida, associando-se-lhe diferentes nomes, cada um deles ligado a um dos membros da mesma congregação.

O que essa repetição induz - com base nessas transposições do mesmo tipo de figura de nome em nome, como se os nomes deslizassem sob a figura, ou ela resvalasse sobre uma certa onomástica - é, portanto, ao sentido de que se trata da afirmação de uma relação de pertença a um conjunto maior, para cada um dos designados. Neste caso, todos eles pertencem a um grupo religioso. Mas ele poderia ser profissional ou simplesmente social. A espécie de «auto-representação», aqui presente, dir-se-ia que ela funciona, pois, em sentido contrário àquele que estamos habituados a ver no auto-retrato, onde a singularidade e a diferença do particular se manifestam qualitatia e visualmente. Definir-se um ente segundo a sua «espécie» foi, portanto, o que aí esteve em causa.



















Herrade de Landsberg - gravura
em cobre (48,5 x 38,5) - Hortus
Deliciarum
, século XII.

2. Os conceitos de identidade legados por Aristóteles - e a que Calabrese se reporta - são três: o de identidade numérica, o de identidade qualitativa e o de identidade específica, a que acabámos de nos referir. Citá-los-emos a partir do modo como Calabrese se lhes refere. A identidade numérica verifica-se quando «um fenómeno possui uma série de 'traços' que o caracterizam como um facto individual e único (para compreender o que é um 'cão' devo saber o que é 'um cão', afirmava Aristóteles)» (Ibidem, p. 45).

E a identidade qualitativa quando «um fenómeno possui uma série de qualidades que o tornam 'diferente' dos outros. As qualidades características que permitem afirmar que um dado indivíduo é 'esse indivíduo' dependem dos conhecimentos que se tem dele e que devem ser entendidos como sintomas. A título de exemplo, as impressões digitais permitem-nos afirmar com uma certeza razoável que uma pessoa é identificável por um nome e um patronímico, mesmo se, segundo a lógica, é sempre possível que duas pessoas apresentem impressões idênticas. Em conclusão, a identidade qualitativa de cada um é confirmada por signos que são o testemunho da sua 'parecença' consigo mesmo». (Ibidem, p. 46)

Enquanto que a identidade numérica se refere ao conjunto de traços que definem um (ser ou um) facto individual, a identidade qualitativa refere-se não a um conjunto mas precisamente àquilo que lhe é contrário: ao ser único que disjunta ou separa o ente de qualquer conjunto, ao ente, em suma, no seu ser particular, apenas encarado, do ponto de vista da persistência da diferença que lhe é própria, como auto-referível. (A «identidade qualitativa» referir-se-ia, quando muito, ao conjunto de um determinado elemento consigo mesmo). A identidade qualitativa supõe, portanto, não a relação de pertença, mas a não-relação de espécie. Ora, o que as auto-representações até então existentes seguem são padrões de identificação específica e numérica, dirá Calabrese. Quer dizer, a «identidade qualitativa» não é, finalmente, solicitada a não ser a dado momento da história da cultura do Ocidente, que será, grosso modo, o dos primórdios do Renascimento e, um pouco mais tarde, o da instauração da Modernidade.

3. O que equivale, ainda, a dizer que a etapa da auto-representação seguinte à da identidade genérica, como notará Calabrese, não pode deixar de ser a do cripto-retrato ou do auto-retrato dissimulado no retrato de grupo, como ele ocorre na pintura histórica, sagrada e profana, dos princípios do Renascimento, a partir do século XV. Porquê? Pelas seguintes razões: a) porque o pintor é ainda um «artesão», o que supõe que ele não é tema legítimo de qualquer auto-representação isolada que tome como pressuposto a sua «identidade qualitativa», de per si; b) uma vez que o trabalho manual é secundário, e é encarado como da ordem da penitência, durante a Idade Média; c) no sentido em que dá a imagem de si como uma de entre várias, na dissimulação de uma sua diferença que começa, no entanto, aí a esboçar-se, e no sentido em que essa imagem de si constitui, inicialmente, um equivalente da assinatura, numa época em que a assinatura se mantém ainda como marca de fabrico, mais do que propriamente como designação de qualquer «identidade qualitativa».




















Iluminura (1402).

A «imagem de si» é portanto, ainda aí, a) uma marca relativa a um fazer, mais do que a uma subjectividade; b) um operador de indicação de uma relação de pertença a um conjunto maior. E ela manifesta-se, igualmente, nos de uma pintura que Leon B. Alberti descrevia como histórica. Diz, então Calabrese:

«Uma consideração ressalta da rápida apreciação que acabámos de esboçar: os exemplos que citámos até agora não são verdadeiros auto-retratos. Apenas uma circunstância permite atribuir um corpo e um rosto a uma personagem determinada, a saber a presença do seu nome numa inscrição ou legenda. Na ausência do nome, ou no caso da mudança do nome [como se verifica na gravura de Herrade de Landsberg] as imagens poderiam ser as de não importa quem. Não se poderia, no entanto, negar que existe, numa certa medida, um desejo de afirmação de identidade. Os «auto-retratos» que examinámos até aqui apresentam, com efeito, as seguintes características:

a) - eles apresentam o equivalente de uma assinatura; essa assinatura, todavia, corresponde à sua fase inicial, dito de outro modo, a uma espécie de abreviação da proposição «X fez isto», na terceira pessoa e sem conter o conceito, totalmente moderno, de autografia. - b) eles são a marca de uma profissão; quer dizer testemunham a pertença do indivíduo designado a um certo corpo de métier ou a uma organização de trabalho. É preciso notar, isso nada tem de fortuito, que as associações de artesãos não nascem senão no fim da Idade Média, a partir do século XIII, momento em que se estabelecem os estatutos das guildas ou das corporações. - c) eles indicam a pertença a um grupo social mais extenso que o seu grupo de origem - é o caso dos monges e das religiosas, reconhecíveis pelo traje e pela tonsura - ou de estatuto mais elevado (é o caso de Senmout e de Imhotep, tornados altos funcionários do reino do Egipto). - d) eles podem introduzir, na Idade Média em todo o caso, um conceito de valor, de tipo ético ou religioso, por outras palavras, a ideia da penitência representada pelo trabalho [manual] (é nesse sentido que é preciso interpretar a «vigneta» de Hildebert e de Everwin: como distracção da tarefa fundamental do escriba)».(Ibidem, p. 45)

4. O que a auto-representação assinala, nessa pintura, é portanto: 1. enquanto assinatura, a relação de atribuição, na proposição «alguém» (X) - designado de fora (isto é, na terceira pessoa: «ele», Mestre Matteo; «ela», Herrade de Landsberg, etc.) - «fez aquilo que aqui se vê»; na verdade, a imagem apenas é de si porque lhe é atribuído um nome próprio que coincide com o do autor. E se ela diz essa autoria é por encaixe da proposição da relação de atribuição, no texto da obra atribuída; tudo aí se passaria como se a obra ela mesma dissesse quem a fez; 2. enquanto imagem, ela assinala a pertença a um grupo social, de estrato mais elevado, ou de âmbito mais alargado do que o da sua origem; 3. enquanto marca de profissão, a pertença a uma organização social de trabalho; 4. enquanto marca de actividade, a sua relação com alguma forma de valor de tipo ético, como é o caso dos trabalhos manuais (por exemplo o dos escribas e o dos iluminadores, pintores, etc).

Em nenhum momento a imagem de si constitui sintoma ou testemunho de que a figura do representado se pareça «consigo mesma», de que ela persista a mesma, na sua diferença, e na sua singularidade. Pelo contrário, ela parece-se com os da mesma profissão ou organização de trabalho, os de um mesmo estatuto ou grupo social, ou os de uma mesma confissão religiosa, os de uma mesma atitude (no caso da penitência encarada como valor ético). O que acontece é portanto que esses retratos mais não fazem do que abrir-se à afirmação de uma identidade específica - de relação de pertença de um elemento a uma espécie - e de uma identidade numérica - em que, por exemplo, «ter um nome» constitui um dos traços característicos que, conjuntamente com outros, forma o número dos traços necessários para a composição do indivíduo genérico - que constitui o denominador comum de que algum enten em particular é uma manifestação.

O indivíduo, tomado na sua singularidade
(e não na sua generalidade), não é ainda um valor. Apenas com a consagração de uma diferente espécie de identidade ele se assumirá, na pintura do século XVII, por exemplo, como motivo suficiente para o estabelecimento de um género autónomo, embora ainda um género relativamente secundário, se confrontado com a pintura histórica de que nos fala Leon B. Alberti, tal como, de resto, secundários serão os géneros da «paisagem», ou da «natureza morta», também eles surgidos, enquanto géneros autónomos, no mesmo século XVII. E o exemplo moderno paradigmático da formulação dessa nova identidade é atribuído, por Calabrese, ao filósofo John Locke.

III - 1. Um outro aspecto, que valeria a pena abordar, seria o da decadência e o das formas que se seguem ao cripto-retrato. A voga do «cripto-retrato», ou do retrato «in assistenza», que se seguirá, logicamente, como diz Calabrese, à voga do retrato de «identidade genérica» (cf. Fragmentos de Leitura 17: Acerca do (auto-)retrato I (entre a Besta de Lascaux e a arte contemporânea: nota 1, aqui no blogue) - no qual o auto-retratado surge como presença relativamente marginal, dissimulada entre muitas outras, numa cena narrativa mais vasta da história (sagrada ou profana) - sublinha já um aspecto que nos interessa aqui sublinhar. O que justifica a presença do artista na cena (da história sagrada) representada na tela é, do ponto de vista ético, a sua devoção (como de resto já acontecia, também, nas auto-representações medievais, em que o artista aparece em acto de oferenda ou de oração, ou mesmo no caso das iluminuras, em que o escriba e o iluminador aparecem representados, uma vez que esse trabalho manual é associado à ideia de penitência).

No caso abordado em Fragmentos de Leitura 17: Acerca do (auto-)retrato I, tratava-se de O Cortejo dos Reis Magos, de Gozzoli. Mas muitos outros exemplos se poderiam aqui alinhar. O curioso é que, por dentro do cripto-retrato, nos finais do século V, começa a aparecer uma variante do auto-retrato in assistenza que é já sintomática da sua decadência: a do «auto-retrato honorífico». Na verdade, em que consiste ele? Em fazer aparecer o pintor, já não dissimulado no seio de um grupo, mas sob a forma de uma representação pictórica, (citada ou) colocada no próprio espaço representado pelo quadro. Vejamos aqui um exemplo. :
















Pinturicchio, Anunciação (1500).

Na parede do lado direito da arcada está pendurado o seguinte auto-retrato do seu autor:




















O enquadramento isola-o nesse espaço, colocando-o num lugar reservado, na parede, a expor, habitualmente, os que se distinguem pelas suas qualidades e virtudes, por vezes acompanhado por certo tipo de inscrições ecomiásticas que (como no caso de um outro pintor, Perugino, comentado por Calabrese) são adicionadas à imagem do pintor, e constituem já um sintoma da voga que, entretanto, o retrato, enquanto género autónomo, vai ganhando. Digamos que o cripto-retrato começa aí a apresentar, no seu próprio interior, com o retrato honorífico, a sua certidão de óbito.

2. Por outro lado, a sua evolução rompe, a partir de uma das suas variantes, (a do auto-retrato in assistenza ligado à participação em cerimónias religiosas), para a deslocação do papel anteriormente assumido pelo artista, de figurante ou de testemunha relativamente marginal, para a sua assunção de um maior protagonismo. Essa passagem é fundamental para a compreensão da evolução do retrato e muito interessante, como prenúncio do que será a alteridade, enquanto dimensão da subjectividade explorada por algum retrato modernista e mesmo pós-modernista. Eis a observação de Calabrese:

Cimabue assiste à Crucifixão, que é talvez o acto fundador do pensamento cristão. Giotto figura entre os eleitos do Juízo Final. Gozzoli toma parte no Cortejo dos Reis Magos. O Orcagna assiste aos Cerimónias Fúnebres da Virgem, Taddeo Bartolo à sua Assunção e Filarete ao Suplício de São Pedro. Vendo bem, todavia, esta situação é a mais corrente e a mais característica do auto-retrato in assistenza e as suas origens são provavelmente muito antigas: certas formas de «retrato» (no Egipto, por exemplo) eram com efeito reservadas unicamente àqueles que podiam ter um contacto com os deuses (CALABRESE, Omar, L'Art de l'autoportrait, op. cit., p. 57).

Vindo à presença dos deuses, colocado em relação com sagrado, para aí se fazer portador da sua mensagem, o pintor, que assiste a certas cerimónias litúrgicas, aí nos chama a atenção para a sua manifestação, ao mesmo tempo que nos assinala, assim, não apenas o seu testemunho, mas também a sua devoção. Por outro lado, uma vez que, depois do século III, a igreja sanciona a função didáctica das imagens, numa espécie de evangelho para iletrados, o seu papel cresce, como já notámos, de importância. E essa justificação da sua presença em cena, como devoto, vai agora de par, também, com a de intermediário, intérprete capaz de traduzir em imagens a mensagem do evangelho. Sujeito produzido pela revelação, sujeito de fé, sujeito do discurso ou do testemunho em imagens. Nessa sua condição, ele participa do sagrado.

3. Quando Alberti, no seu tratado Da Pintura, nos estabelece aquela figura limítrofe (do espectador-comentador), que é também a do «admonitor» - figura da recepção da obra, próxima de um «discurso» (no sentido de Benveniste) que, nela e simultaneamente fora dela, liga a «história» à sua enunciação e, por conseguinte, não apenas a um sujeito enunciador, mas também a um seu receptor (a um seu «enunciatário», para ser mais correcto) - ele teoriza já uma posição discursiva que resulta, historicamente, no retrato in assistenza, desse crescimento de importância dos artesãos, ligados às artes visuais e à representação iconográfica religiosa. Mesmo não se referindo à pintura cristã - o mito da origem da pintura, de que Alberti se serve, no seu tratado, é o de Narciso - antes se referindo, bem pelo contrário, à pintura histórica tout court, o seu «admonitor» é um guia e um intérprete.

Ora, é aqui que nos parece que a visão de Calabrese se torna verdadeiramente interessante: a de que do retrato «in assistenza» derivam possibilidades que vêm, finalmente, a impor a figura do artista, já não como «figurante», mas como figura assimilada por um personagem, mítico-religioso ou simplesmente histórico-mundano, ou ainda mitológico. Tudo começa porque, a par da referência humanista e mitológica ao mito de Narciso, a pintura histórica cristã incorpora também, como fundamento da pintura, não apenas a história de Cristo, que imprime a imagem do seu rosto no lenço de Verónica, a caminho do Calvário, mas também a de São Lucas, que antes de evangelista fôra pintor. Eis o que Calabrese nos diz:



















Maerten Van Heemskerck,
São Lucas pintando a Virgem
,
1545-1550

«O tipo mais corrente de auto-retrato «delegado», sobretudo sob o primeiro Renascimento, é o que introduz o artista numa cena sagrada sob o nome de um dos protagonistas, ou, mais raro, o que o identifica directamente com uma figura sagrada autónoma. Nessa perspectiva, o tema de São Lucas pintando a Virgem, é sem dúvida aquele que mais contribuiu para a génese do auto-retrato independente. Enquanto que o mundo antigo recorria às fábulas de Narciso na fonte, da amante abandonada a traçar o contorno da silhueta do seu noivo que parte para a guerra, ou do escultor obcecado por uma estátua feminina que é mais bela que as mulheres reais, etc., o cristianismo liga o nascimento da pintura a episódios da vida de Jesus. É assim que aparece a história da «verdadeira imagem» (vera icona), a do Cristo que imprime ele próprio o seu rosto no véu de Verónica durante a subida ao Calvário, ou que deixa o seu retrato na tela do pintor enviado pelo rei de Edesse, Abgar. Mas sobretudo, vê-se elaborar-se o mito de São Lucas que teria sido pintor, antes de se tornar autor de um dos Evangelhos, e que teria tido o privilégio de executar o retrato da Virgem e do seu filho.» (Ibidem, p. 88).

4. A figura de São Lucas é, portanto, uma figura pivot, neste processo que virá a ser a do travestimento da figura do artista nas várias personagens que ele investe, na sua projecção idealizada e alterada. Ela representa, em primeiro lugar, uma figura do pintor «in assistenza», a quem é dado ter as figuras sagradas da Virgem e do Menino como modelos. E, em segundo lugar, a de uma personagem que, na qualidade de «santa», participa desse sagrado de que, ao mesmo tempo, é testemunha. Ora, há toda uma tradição de auto-retrato «delegado», isto é, investido em personagens «outros» (o «auto-retrato» é aqui «delegado» na personagem a que ele dá feições exteriores particulares no sentido em que é a personagem que o transporta consigo e o exibe), que pertencem ao repertório das tradições (mitológicas, ou cristãs). Na imagem a seguir vê-se o auto-retrato de Ghirlandaio, investido na personagem de São José, apontando para o menino Jesus e, em simultâneo, autodesignando-se num gesto que se diria sugestivo da sua relação de paternidade.



















Dominco Bigordi, dito Ghirlandaio, Natividade, 1485.

Muitos outros exemplos se poderiam aqui aduzir desse travestimento da figura do auto-retratado numa personagem da tradição religiosa. Um dos seus mais notáveis prenúncios seria o de Albrecht Dürer, na pose do Cristo Pantocreator. «À direita, para o espectador [no quadro]: [...] 'Eu Albrecht Dürer de Nuremberga, fiz o meu próprio retrato com as cores apropriadas no vigésimo oitavo ano da minha existência'. À esquerda, (sempre para o espectador), o célebre monograma de Dürer encimado por uma data, 1500 [embora pintado em 1505], motivo que induz uma coincidência involuntária entre as iniciais do artista e a sigla a significar Anno Domini. 'Involuntária?', mas até que ponto? Sabemos bem que durante toda a sua vida Dürer foi cioso da sua imagem. Esse auto-retrato não foi o primeiro mas o terceiro executado em painel e existem ainda três feitos a pena, todos eles anteriores, dos quais um aos 13 ou 14 anos e um quarto desaparecido. Se pensarmos que já aos 13 anos Dürer desenhava o seu retrato e que o Auto-retrato com ramo de cardo, autografado pela inscrição «Os meus negócios [affaires] seguem o curso que lhes é atribuído lá em cima»: talvez fosse preciso ver aí a explicação da sua insistência em fazer, do seu próprio auto-retrato, o rasto de um sentimento de predestinação, de fatalidade, de unção divina. De um só golpe, o Auto-retrato de 1500 começa a revelar uma trama escondida. A sua aparência cristológica e a sua geometria «divina» (ele é construído a partir de um quadrado, de um triângulo e de um círculo, como as imagens bizantinas de do Redentor) simbolizam a transcendência do artista criador; quanto à escolha da data, 1500, a metade de um milénio, ela estabelece uma correspondência entre o sentido da imortalidade e o do destino. Pode portanto admitir-se que Dürer estivesse plenamente consciente do sentido que dava ao seu quadro» (Ibidem, p. 92)



















Albrecht Dürer, Auto-retrato, 1500.

Os exemplos poderiam multiplicar-se, não apenas no interior da tradição cristã, mas no âmbito dos de inspiração grega e romana, referidos às fontes da cultura humanista,de então, como o de Aert Gelder, auto-retratado como Zeuxis, ou o de Rembrandt, auto-retratado como Demócrito, ou Caravaggio cujo rosto daria expressão a uma cabeça de Medusa, ou que se apresentaria como Baco, como Golias, como Holofernes (à semelhança do que faz Lucas Chranach), ou mesmo como Cristo, ou ainda o exemplo de Artimisa Gentileschi, figurando como Judite, ou de Giorgione representado como David, etc., etc.









À esquerda, Rembrandt, como Demócrito;
À direita, Aert Gelder, como Zeuxis.

(Talvez fosse possível (e desejável) procurar refazer algumas das etapas do caminho que, por esta via, se abre, e vai de Albrecht Dürer e Rembrandt a alguns expressionistas, como Max Beckman e L. Kirckner, que se autoretratam como músicos e soldados, respectivamente, ou a alguns surrealistas como Dalí, com o seu auto-retrato travestido de Mona Lisa, ou a alguns construtivistas, como Vladimir Tatlin, fardado de marinheiro, ou a alguma arte americana, como a de Jackson Pollock, que se auto-retrata como um homem negro e, mais tarde, a uma certa prática do retrato fotográfico, por exemplo em Cindy Sherman... Coisa que deixaremos para mais tarde.)

quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Avulsos 13: Chinua Achebe, Mia Couto e Homi Bhabha













Homi Bhaha, à esquerda; Chinua Achebe, à direita.

Chinua Achebe:

«The story is so different from what I had read as a child; I knew I couldn't write like Dickens or Conrad. My story would not accept that. So you had to make an English that was new. Whether it was going to work or not, I couldn't tell.» (ACHEBE, Chinua , sobre a sua obra prima, Things Fall Apart).
















Mia Couto:

«Falta-nos, muitas vezes a coragem para procurar os nossos demónios dentro de casa. [...] Os meus antepassados estão enterrados em outro lugar distante, algures no Norte de Portugal. Eu não partilho de sua intimidade e, mais grave ainda, eles me desconhecem inteiramente. [...] Na maior parte das línguas bantus, não há tradução para dizer «cultura», como não há tradução para dizer «natureza», para dizer «sociedade». Esta ausência de equivalência não deriva de alguma menoridade das nossas línguas. Resulta sim, de um outro ponto de partida filosófico, de uma outra visão do mundo. Para a maioria dos moçambicanos rurais não existe essa fronteira entre aquilo que é «cultural» e «natural». Existe sim um mundo interligado, que só pode ser entendido e designado de uma forma única». (in Pensatempos)

Homi Bhabha:

«There is a damaging and self-defeating assumption that theory is necessarily the elite language of the socially and culturally privileged. It is said that the place of the academic critic is inevitably within the Eurocentric archives of an imperialist or neo-colonial West. The Olympian realms of what is mistakenly labelled 'pure theory' are assumed to be eternally insulated from the historical exigencies and tragedies of the wretched of the earth. Must we always polarize in order to polemicize? Are we trapped in a politics of struggle where the representation of social antagonisms and historical contradictions can take no other form than a binarism, of theory vs politics? Can the aim of freedom of knowledge be the simple inversion of the relation of oppressor and oppressed, centre and periphery, negative image and positive image? Is our only way out of such dualism the espousal of an implacable oppositionality or the invention of an originary counter-myth of radical purity? Must the project of our liberationist aesthetics be forever part of a totalizing Utopian vision of Being and History that seeks to transcend the contradictions and ambivalences that constitute the very structure of human subjectivity and its systems of cultural representation?» (BHABHA, Homi, The Commitment to Theory).

terça-feira, 28 de Julho de 2009

Digressões I: O corpo-a-corpo e a instalação (James Turrell; Hal Foster; Rosalind Krauss; Roland Barthes; Jacques Derrida; Freud; Jacques Lacan)





James Turrell, Milk Run III, 2002.

I - 1. Começamos esta nota com um pequeno exercício do nosso olhar. A instalação de James Turrell induz-nos a uma interrogação. Que vemos ali? Por um lado, uma abertura quadrangular, vista obliquamente, pela qual jorra a luz ígnea de uma espécie de bojo de fogo.

Sobre ela, ou dela se deslocando, na nossa direcção, uma espécie de porta de vidro transparente se abriria... Ela deslocar-se-ia, assim, para cá dessa abertura de fogo. E avançaria em direcção a nós, como que nos franqueando o acesso àquilo que à sua transparência vemos...

Mas também poderíamos ver, pelo contrário, no lugar dessa «porta de vidro», que se desloca sobre e para cá dessa abertura de fogo, desta vez uma abertura para lá da qual se abre uma porta cujo reflexo incandescente nos indicaria alguma espécie de inferno oculto, lateralmente percebido.

Essa segunda abertura de porta (ou janela), distinta da primeira, tem o seu batente situado em sentido contrário, num movimento que abre para lá (e já não para cá) dela, colhendo, sobre a sua superfície, o reflexo de um fogo ou de algum inferno interior que não vemos, então, senão como reflectido. Essa oscilação, entre uma e outra percepção, em nenhum momento se deixa reduzir.

Eis talvez aquilo em que consiste o nosso inferno: que, de cada vez que o vejamos, ele se desvie do que vemos. E que ele nos não seja visível senão através de algum vidro que dele nos defenda, e no-lo deforme. O franqueamento da sua abertura o dissipa de imediato, transpondo-o para uma espécie de latência que o faz desaparecer do nosso olhar, para o colocar num fora de campo que se estende até ao lugar em que estamos. «Não há inferno senão invisível». Eis o que a instalação de James Turrell nos insinua, ou nos dá a ver... Ele não está nunca «no seu lugar», uma vez que resiste...

Porque entre uma e outra dessas percepções, nem a porta, nem a abertura, nem finalmente aquilo que nos parece, um tanto indistintamente, ser o que chamamos «fogo», ocupam a mesma posição. Eles mudam incessantemente de posição. Ora vemos esse fogo «directamente», através da abertura oblíqua, e da porta de vidro transparente que sobre ela se abre e suspende, ora ele desaparece, lateralmente, para não nos ser acessível senão na sua forma de reflexo, sobre o batente da porta que se abre para lá de uma outra abertura, esta mais próxima de nós, exactamente no sítio da anterior «porta de vidro». A proximação distancia. E a distância, por isso mesmo, aproxima. Coloca em estado de iminência diferida, em estado de diferimento iminente, aquilo que ao nosso olhar nos oculta.

O título da instalação - Milk Run III - diz-nos, por um lado, pela numeração em que termina, que se trata de uma série de obras do autor, das quais esta se pode ler de forma mais ou menos independente, mas nunca completamente dissociada das restantes. A ideia de um jorro de leite - do movimento do leite, do seu fluxo, associado às imagens de James Turrell - é, então, para nós, a de um imaginário no qual se afirma uma indecidibilidade irredutível. Esse imaginário é anterior ao conceito, ou ao simbólico, assim como à auto-referência, e permanece no seu limite. Ele permanece, assim, no limite de todo o limite. Mas «Milk Run» lembra-nos ainda, também, uma das asserções de Roland Barthes, em A Câmara Clara: «as fotos são signos que se alteram como leite». E o que haveria de «latente», na instalação, seria também o que haveria de «lactente» no sujeito, numa fase em que o seu imaginário, sendo condição de possibilidade de divisão ou separação pelo simbólico, seria também aquilo que, irredutivlemente, o ameaça.

A sugestão que colhemos dessa observação de Barthes tem, mais ou menos, a seguinte leitura: 1.) qualquer coisa nas fotos, as faz oscilar entre o seu «studium» e o seu «punctum», entre o que delas toma parte no reconhecimento (o studium) e o que, pelo contrário, nele se não contém e me «salta à vista» (o punctum); 2. acontece que essa oscilação (entre a cultura e o desejo) é histórica e temporal.

O que significa, de entre outras coisas, que «Milk Run» supõe também a possibilidade de que as suas instalações nos falem, quer da experiência de uma temporalidade irredutível, quer do que, no sujeito, corresponde a uma certa experiência do imaginário. Não a de um imaginário estanque, como vimos - isto é, fechado sobre si mesmo, aferrolhado pelo simbólico, - mas de um imaginário em que os objectos se clivam, se movimentam... Nessa sua clivagem, eles acederiam a uma espécie de estado ambivalente e indecidível do neutro.

Em Art since 1900: modernism, antimodernism, postmodernism, de autoria colectiva (FOSTER, Hal; KRAUSS, Rosalind; BOIS, Yves-Alain; BUCHLOH, Benjamin H. D.), lê-se a seguinte indicação, a propósito de Milk Run III: «[...] outras práticas - Performance, video, e a arte da instalação em particular - continuaram a abertura do corpo e dos seus espaços inaugurada pelo Minimalismo, assim elaborando sobre as suas preocupações fenomenológicas. A Performance e o video comprometiam o espectador directamente, mas restrições de colocação em cena [of staging] na primeira e a dependência de monitores na segunda mantêm frequentemente o espectador à distância. Foi a instalação que atirou tudo para a experiência do espectador, e em nenhuma parte de forma mais clara que na obra de James Turrell (nascido em 1943), que estabelece enormes campos de luz colorida. Frequentemente estes campos são produzidos através de uma leve abertura numa parede de galeria acompanhada, por detrás dela, [backed] por um plano oblíquo que é brilhantemente iluminado mas cuja localização exacta é quase impossível de determinar por essa mesma razão. Uma instalação de James Turrell parece existir como pós-imagem, aparecendo como uma forma fantasma projectada pela nossa própria actividade retiniana e sistema nervoso mais do que um objecto fixo de seu pleno direito. Em vez dos espectadores que reflectem e dos espaços delineados do Minimalismo, tal arte tende a efectuar uma espécie de experiência do sublime na qual o espectador é cumulado por uma aparição que ele ou ela parecem projectar no ser». (FOSTER, Hal; KRAUSS, Rosalind; BOIS, Yves-Alain; BUCHLOH, Benjamin H. D., Art since 1900: modernism, antimodernism, postmodernism, London, Thames & Hudson, 2004, p. 654).

2. No domínio da imagem (ou da percepção), essa alteração funciona como indicador de uma reversibilidade que não é possível suspender. Ora, o jogo entre percepções, que a instalação nos suscita é, ele mesmo, a experiência de uma forma de irredutível temporalização do espaço. Por um lado vemos e, por outro, o fogo que vemos não é senão o seu reflexo, no batente de uma abertura que permanece indecidível.

Ou ainda, se quisermos localizar essa abertura oblíqua que resulta da projecção desses campos de cor sobre a parede da galeria, verificamos que se trata de um espaço impossível de determinar, uma vez situado para lá do que, nessa parede, por outro lado o delimita. Porque se trata aqui de pensar o «quadro» como um dispositivo que põe em questão essa espécie de oscilação significante, começaremos aqui por lembrar o que escrevia Roland Barthes, em «Diderot, Brecht, Eisenstein»:

«O Organon da Representação (que se torna agora possível escrever porque outra coisa se advinha) […] terá por duplo fundamento a soberania do recorte e a unidade do sujeito que recorta» (BARTHES, Roland, «Diderot, Brecht, Eisenstein», O Óbvio e o Obtuso, trad. de Isabel Pascoal, Edições 70, 1984, p. 81. Usaremos a versão portuguesa apenas em confronto com o francês). E acrescentava:

«a cena, o quadro, o plano, o rectângulo recortado, eis a condição que permite pensar o teatro, a pintura, o cinema, a literatura, quer dizer, todas as artes além da música e a que poderíamos chamar: artes dióptricas» (ibidem).

Observemos, por um lado: a) o modo como o quadro, a cena, o plano cinematográfico, o rectângulo cortado serão, não só o exemplo de um espaço que em nós – num sujeito espectador, leitor ou autor que é, simultaneamente, menos e mais que um – o Tempo sempre teria encontrado, como sua própria (sobrevinda e sobrevivente) denegação, mas também, enquanto condição do pensamento das «artes dióptricas»: 1. o lugar de onde esse Tempo se não poderia já retirar, simplesmente, dominar, ou fazer desaparecer e: 2. o modo como a historicidade aí se marca, numa história que foge, assim, do seu próprio interior. Por outro lado e, em simultâneo: b) que outra coisa «hoje» se adivinha, no momento em que se descreve o Organon da representação.

3. Começaremos, assim, por procurar pensar o que se joga na relação entre, não só o que, do lado do sujeito, na sua unidade, nos parece que, «hoje», se recorta, mas também o que, do lado do quadro, nas suas linhas‑limite, as que nele materializam o lugar da soberania do olhar que o traça, se indecide (o que não equivale a dizer que se indetermina) e oscila.

O que, em ambos os casos estará em jogo, nesse duplo fundamento da representação, é uma articulação entre arte e poder que nos interessará observar. Para procurar aproximar-nos dessa articulação vamos seguir aqui uma espécie de desvio. Há um texto de Jacques Derrida em que nos parece que ela se nos torna visível, pensada na relação entre sujeitos e, em particular, na relação «analítica». Não é um texto sobre arte, mas estamos em querer que nos ajuda a pensar no que acontece, na relação de imersão, hoje muito recorrente, do sujeito-espectador no espaço de instalação, se seguirmos aqui os critérios de definição de «instalação» de Florence Mèredieu, já mencionado noutros lugares do blog.

O texto de Derrida de que aqui nos lembramos é sobre Freud e a noção psicanalítica de «resistência». Em que consiste ela? Quais são as suas implicações? Derrida relê, nesse texto, uma nota de Freud que é muito interessante, para aquilo de que aqui se trata, porque constitui um exemplo e um testemunho de que a resistência não pode ser pensada, exclusivamente, de um dos lados da relação analítica, como ela se costuma pensar. Com efeito, parece-nos que nem a «soberania do recorte», nem a «unidade do sujeito que recorta» se poderiam hoje, tranquilamente, dissociar dessa condensação do político e do erótico – do polemos e do eros de que nos fala Jacques Derrida, em Résistances: de la psychanalyse, ao analisar, a partir de «O Sonho da Injecção de Irma», aquela irredutível relação de forças que toda a resistência pressupõe. Observemos o que Derrida nos diz acerca da nota de Freud, antes de a começarmos a ler:

«Freud dá-nos assim o exemplo de uma lei. Que lei? Aquela que manda em geral que se interprete como resistência à análise, à solução, à resolução (Lösung), a reserva de alguém que não aceite a vossa solução. (Uma tal lei, seja dito entre parêntesis, reinscreve toda a análise numa relação de forças, e toda a interpretação na política de um polemos e de um eros, na sedução, arrisquemos esta palavra, de um poleros irredutível. Analisar o que quer que seja, a quem quer que seja, para quem quer que seja isso quereria dizer ao outro: escolhe a minha solução, prefere a minha solução, toma a minha solução, ama a minha solução. […] para evitar demasiada precipitação eu diria numa palavra que o único limite desse poleros, dessa condensação do político e do eros é o suspense[le suspense] dessa sedução analítica, é um outro conceito de resistência ou antes de restância [restance], restanálise [une restanalyse] (DERRIDA, Jacques, Résistances: de la psychanalyse, Paris, Galilée, 1996, p. 22; só o último itálico é nosso)

A lei que Freud nos dá é uma lei da «unidade do sujeito», constituído na «soberania do seu recorte». Descrever, analisar é já, ao mesmo tempo: a) operar um (re)corte, sem que ele suponha, aos nossos olhos, a perda de soberania do olhar que recorta; pelo contrário: trata-se, como se sabe, em qualquer análise, de uma descrição que, simultaneamente, produz o que é analisado, segundo o movimento do discurso que analisa; soretudo se «produzir» for aqui compreendido como pôr em presença, avançar com alguma coisa que é trazida à luz; b) e em situação de interacção, descrever (o outro) é também procurar persuadir, quanto à bondade ou à eficácia de um sentido soberano, posto em jogo na descrição, e que deve conter a unidade do sujeito que aí olha. Ora, é nesse plano da persuasão do outro - de confronto com o outro - que as coisas começam a oscilar, e que essa «soberania do olhar» que recorta pode vir a encontrar os seus limites.

Uma vez que a fórmula de Roland Barthes inclui a página, ela inclui também a relação da «leitura». Mas na medida em que um texto supõe sempre mais que um sujeito - neste caso pelo menos dois - essa leitura não deve ser pensada unilateralmente. Uma leitura unilateral é uma não-leitura. Ora, na cena que vai seguir-se, Derrida cita-nos Freud numa passagem em que o seu leitor [o de Freud] se vê colocado na posição transferencial de uma espécie de confidente. Freud confessa aí um sentimento ou um pressentimento:

«Freud confessa um sentimento, um pressentimento, (ich abne, diz ele). A confissão tem o seu lugar numa nota acrescentada com algum atraso. Ele toma o leitor como testemunha, como nos dirigimos a um confessor ou a algum destinatário transferencial, quer dizer, certas pessoas diriam como a um analista, supondo-se que um leitor não o seria sempre» (DERRIDA, Jacques, op. cit., 16).

Que diz Freud, nessa nota? Eis o que ele diz:

««Eu tinha portanto comparado a minha paciente Irma com duas outras pessoas que manifestaram ambas resistência ao tratamento. Porque é que no meu sonho lhe susbtituí eu a sua amiga? Sem dúvida porque eu teria preferido esta substituição: a outra suscita uma simpatia mais forte em mim e eu tenho uma mais elevada opinião da sua inteligência. Tenho com efeito Irma por tola [sotte], uma vez que [desde que, dès lors] que ela não aceitou a minha solução (meine Lösung nicht akzeptiert). A outra teria sido mais inteligente, ela teria portanto cedido mais cedo [subentendido aos meus conselhos, à minha demanda – ou aos meus avanços]»» DERRIDA, Jacques, op. cit., pp. 21-22; o último parêntesis recto é de Derrida, que aí lê o enunciado de Freud).

Freud sonha, mas não com Irma. Melhor: ele sonha com Irma menos tola, mais inteligente, mais dócil e receptiva à sua «solução». É pelo menos isso que ele sente ou pressente. O que no sonho se «mascara» é a resistência de Irma, sob a sua forma substituta, a de uma resistência atenuada. Freud, censurando Irma, pouco inteligente e bastante tola - tola o bastante para resistir à sua solução - auto-censura-se, ele próprio, por não conseguir convencê-la da sua solução. E o seu sonho seria disso testemunho, arrastando, no movimento de deslocamento pressuposto por essa substituição, a sua verdade, aos olhos da psicanálise.

Essa substituição só é possível por algum traço de identificação. Ora, a identificação é aqui apoiada no traço da maior ou menor resistência. Há três pacientes suas que manifestam resistência ao processo de transferência. No entanto, essa resistência é em graus distintos. O que o sonho de Freud mostra é a substituição de Irma - que resiste mais à sua «solução» - por outra que considera menos «tola», que é menos resistente, que «teria cedido mais cedo». O que torna o deslocamento entre ambas as figuras possível... Mas essa substituição metafórica mantém-se como indicador de uma presença outra, de um deslocamento, de uma metonímia. Sob a sua amiga, é ainda de Irma que se trata. A boca (de Irma «substituída») abrir-se-ia então bem:

«ela ter-me-ia dito (contado, erzählen) mais do que Irma» (ibidem).

O que o sonho de Freud mostra é, pois, que há também uma resistência do lado psicanalítico. Não apenas do lado da paciente, mas também do de Freud, nessa sua resistência à resistência de Irma. Neste sentido, a resistência é, aqui e paradoxalmente, um traço de união, entre analista e analisanda. Não é apenas em Irma que a resistência aparece. É também no discurso do analista, que sintomaticamente «sonha» com a sua anulação. Nessa relação há pois um «polemos» que se manifesta pela dupla manifestação de resistência. E o que ela põe em relevo, na análise desse confronto, é que ele envolve negação da mesma uma pulsão erótica que lhe substitui uma outra personagem, mais dócil e incorporativa, mais aberta à sua solução.

E esse traço da resistência que em ambos se manifesta será, como dirá Derrida, «pré-tético» (anterior a qualquer tese) e «pré-judicativo» (anterior a qualquer juízo), não apenas visto que ele emerge, também, do sonho, mas também porque ele (o juízo de Freud) se limita a uma avaliação pouco sustentada, ou a um juízo de valor que em nada se ficaria a dever ao exercício da psicanálise: um juízo acerca da sua inteligência, movido por uma comparação com as restantes pacientes.

O discurso psicanalítico seria, assim, também ele, um discurso de um certo inconsciente, de um certo impensado. Um discurso em que emerge um outro discurso. Um discurso (pré-judicativo) a inscrever-se em outro discurso (judicativo). O que significaria ou induziria à noção de que não seria possível desvincular um do outro. E se a resistência é neste caso aquilo que, na dissociação pressuposta pela impossibilidade do processo transferencial que afasta ambas as personagens (Freud e Irma), ela é, também, o que permite sobrepô-las, juntá-las, reuni-las, pôr a descoberto um traço de semelhança entre ambas.

Aquilo com que se sonha é, num dos sentidos do sonho, com a superação da resistência... de Irma, que ali aparece sob a forma de uma sua amiga. Essa relação de substituição sugere o desejo de uma posição de poder, por parte do analista e de uma incorporação, por parte da analisanda, uma espécie de introjecção do discurso do Outro. Eis, portanto, um exemplo de lei e de lei da resistência – à e da psicanálise, tal como à e da análise em geral – que a nota de Freud nos dá e sobre que se debruça Derrida, acrescentando:

«não se pode contestar a inelutável verdade desta cena, eventualmente em nome da verdade, a não ser na denegação: não se lhe pode opor senão a denegação; mas uma denegação em nome da verdade não é uma denegação qualquer, de onde o abismo – e é esse o problema todo» (ibidem, pp. 21-22).

4. O sonho mostra, portanto, o que o discurso (anterior) de Freud não faz senão denegar, em nome de uma verdade que é, também, a verdade da psicanálise. O problema todo reside - diz-nos Derrida - aí. Como se poderia, então, equacioná-lo aqui de um ponto de vista que interessasse, a partir do que ele supõe na representação, à arte?

Recordemo-nos da primeira afirmação de Jacques Derrida: «Analisar o que quer que seja, a quem quer que seja, para quem quer que seja isso quereria dizer ao outro: escolhe a minha solução [...]». Escolher uma outra solução é incorporá-la, aceitá-la como nossa. Ora essa aceitação supõe sempre uma questão e uma relação de soberania. Aceita-se o que não se pode deixar de aceitar, vindo daquilo que nos cerca, e que nos confronta com a inadequação da nossa solução. A incorporação do discurso do Outro é portanto o gesto de uma submissão.

Ora, vistas assim as coisas, aquilo a que aqui se chama «resistência» começa a ganhar, paradoxalmente, os contornos de uma não-resistência, de uma resistência não-resistente, e se situa por isso no lugar, não exclusivamente da clausura, mas também da abertura. Entre Irma e Freud há pelo menos uma semelhança que os aproxima, e que poderia substituí-los, um pelo outro. Há «um resto de análise» que ali permanece, insistentemente, e que resiste sob a forma de uma «restância», isto é, sob a forma de uma certa irredutibilidade que afecta toda a análise. O que aí acolhe o discurso da análise é, também, afinal, o que o cinde – «numa ordem pré-tética e pré-judicativa o traço é bem uma ligação» (ibidem, p. 42). É de resto aí que a (psic)análise apela a uma restanálise e esta se articula no movimento de uma descontrução:

«O que é a desconstrução da presença senão a experiência dessa dissociação hiperanalítica do simples e do originário? O traço, e escrita, a marca isso está no coração do presente, um movimento de reenvio ao outro, a outro» (ibidem, p. 42)

De que forma, então, essa restance se inscreve, irredutível e necessariamente, no horizonte da relação analítica? Para a tentar compreender melhor, regressemos a ela e observemo-la um pouco mais de perto. Poderíamos descrevê-la assim: na boca como abertura – ou na abertura da boca, tal como na abertura da cena, (à boca da qual estariam, também, o palco, a página ou ainda o quadro, para Roland Barthes) – a resistência que aqui se retraça é, em simultâneo, um movimento ténue, um certo e lábil movimento, um movimento pelo qual os lábios se afastam – e se abrem bem à passagem do outro, enquanto lugar da (não-)solução, para dele e nele inscreverem uma incorporação dissociativa - ou se juntam, num retraimento - para nele e dele inscreverem uma dissociação incorporativa. Eles são um limite: o de um corpo que é, simultaneamente, na relação analítica, o que diríamos dever ser pensado numa dupla dimensão, uma relação quiasmática.

Por um lado, aquela relação em que se trata de pensar uma relação dialógica - e não apenas de diálogo, o que é diferente - em que dizer é já inscrever outro no seu discurso e, portanto, também «mencioná-lo», «citá-lo», etc: «ela ter-me-ia dito mais», diz Freud, visto que (e/ou também por isso…) ele [Freud] possui «uma mais elevada opinião da sua inteligência», significando-se, com isso, não apenas que ela teria sido mais inteligível e inteligente, na medida em que consonante com o que digo, mas também que ela, no seu dizer, teria dito coisas que poderiam ser minhas, ter-me-ia dito, antes e depois de mim e da minha fala. Por outro lado, a relação de uma não-«relação», a relação de uma impossibilidade de um contar ou de um dizer-me, na sua tolice, na sua falta de inteligência.

4. Este conjunto de observações lembra-nos um outro tipo de considerações, que podemos encontrar, desta vez, em Lacan, a propósito do sujeito. Nelas a relação intersubjectiva desloca -se para a posição da situação edipiana e procura pensar-se, de igual modo, no plano da relação de soberania, tal como ela se inscreve, na doutrina cristã. Lacan tem a seguinte observação, em Mais, ainda. Sirvo-me aqui da versão brasileira. Vejamo-la, por partes:

«Vou-lhes colocar uma questão - que importância pode haver [i. e., que imortância pode ter], na doutrina cristã, o facto de Cristo ter uma alma? Essa doutrina não fala senão da encarnação de Deus num corpo, e supõe mesmo que a paixão sofrida por essa pessoa tenha constituído o gozo de outra. Mas não há nada que falte ali, notadamente nenhuma alma. Cristo, mesmo ressucitado, vale pelo seu corpo, e seu corpo é o turgimão pelo qual a comunicação com a sua presença é incorporação - pulsão oral - com a qual a esposa de Cristo, Igreja como a chamam, se contenta muito bem, não tendo nada a esperar da cópula. [...] Quase chegando à cópula. Se ela não se apresenta, não é para inglês ver. Ela está [aí] tão por fora quanto na realidade humana [trata-se aqui do «humano» que há em nós, somente], a qual entretanto, ela sustenta com as fantasias de que é constituída. Em parte alguma, em nenhuma área cultural, essa exclusão [da cópula] se confessou de maneira tão nua. (LACAN, Jacques, Mais, ainda: o seminário - livro 20 1972-1973, trad. de M. D. Magno, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985, p. 154).


Eis o problema, em redor do qual se formula a questão de Lacan: se Cristo é a encarnação de Deus, como pensar uma alma que seja sua? Ora, a leitura de Lacan é a seguinte: essa sua «alma» não é senão o lugar de uma incorporação do Outro (pulsão oral). De resto, Cristo vale pelo seu corpo e não pela sua alma. O seu corpo é o lugar do discurso do Pai. Digamos que, por analogia com a cena anterior, entre o analista e a analisanda, Cristo seria aí o exemplo de um grau zero da resistência. Ele situar-se-ia aí do lado da paciente menos resistente.

Pois nenhuma resistência aí se manifesta, no lugar suposto da sua alma: Cristo é, simplesmente, Deus encarnado. O filho é a imagem do Pai, descido à terra - de outro modo invisível, na sua transcendência. O que é «transcendente» vem aqui ao que é um «ente» que lhe oferece um invólucro exterior, um corpo. O sujeito pressupõe, portanto, um «furo». Se se lhe atribui uma alma é para sublinhar que se trata, no cristianismo, de incorporar o discurso do Outro.

Vê-se o interesse do exemplo. Do ponto de vista da psicanálise lacaniana, o «pai real» é apenas, no Édipo, o agente de embraiamento de uma operação que se espera realizada no filho: a de introjecção-sublimação. O que se espera é que o filho igualmente incorpore ou introjecte o discurso do Outro. É pelo exemplo de respeito pelo simbólico fornecido pelo pai que a criança chega, tomando-o como ideal, à introjecção-sublimação que supõe a «resolução» do complexo. É exactamente o que se dirá em LACAN, Jacques, Le séminaire - livre IV: La rélation d'objet (1956-1957), Paris, Seuil, pp. 209-210. Veja-se, a este propósito, o que é dito em PEREIRA, José Paulo, O Exercício da Distância e o Limite do Limite, Lisboa, Vendaval, 2007, p. 50. Nesse sentido, a alma de Cristo - Nosso Senhor - é simplesmente o lugar transferencial de um discurso do Outro, do «tout autre» como dirá Derrida, em Donner la mort.


6. Analisemos agora mais de perto o que Lacan nos diz. Um «turgimão» é (diz-nos o dicionário, vocábulo vindo do árabe tarjumãn, «intérprete», sinónimo de drogomano: «var. de turgimão» «intérprete das legações e consulados do Oriente; dragomano, trugimão ou turgimão»; cf. AA VV, Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 2ª ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986, p. 1728 e p. 612, respectivamente) um «intérprete». Mas o que é um interprete? O intérprete não é apenas o que pensa e traduz o significado mais ou menos «profundo» das coisas, ditas ou acontecidas. É também o executante, o que desempenha um papel, o que se identifica com e se substitui por outrém, o que se põe na posição de.

Nesse sentido (que poderia ser também usado em teatro: «interpretar» o papel de significa «fazer o papel de» ou, mais simplesmente, «fazer», imaginemos, o Brutus, na peça de Shakespeare, por exemplo) o intérprete é também aquele que é o lugar de alguém. Ora, o corpo de Cristo, lugar de incorporação da Voz do Outro, invocação da sua presença, é um exemplo, o melhor dos exemplos, da e para a sua esposa, a Igreja: nele se realiza essa incorporação (pulsão oral) do discurso do Outro que a/o «constrói» como tal (e dele afasta a possibilidade da cópula). Dirá Lacan: «Aí há um furo, e esse furo se chama o Outro». (ibidem, p. 155). Cristo «vale apenas pelo seu corpo», portanto, e Lacan encadeia:

«Eu diria mais [...] eu chegaria mesmo a lhes dizer que em parte nenhuma como no cristianismo, a obra de arte como tal se verifica de maneira mais patente como aquilo que ela é desde sempre e por toda a parte: obscenidade. A diz-mansão da obscenidade, aí está por onde o cristianismo reaviva a religião dos homens». (ibidem, p. 155).

6. Notemos, primeiro - antes de abordar aqui esse sentido do neologismo «diz-mansão», que veremos aqui um pouco mais adiante - que o «obsceno» é o que está em cena diante dos nossos olhos. É esse o sentido do étimo da palavra, antes e por fora dos valores depreciativos que entretanto ela ganhou. O prefixo «ob-» supõe isso mesmo, tal como em «objecto», que Heidegger lembrará ser «o que é lançado para diante». O que de nós se põe diante, portanto: o corpo.

E nesse sentido, a arte supõe a obscenidade, o nosso estar diante do seu corpo, morada de um segredo sem fundo, de um sujeito/objecto que é Outro, e do «furo» que necessariamente ele é. Tal como acontece com o corpo de Cristo, o corpo da arte supõe «o furo» (pulsão oral) por onde ressoa um Outro discurso, cuja instância de origem é precisamente o que não se manifesta «em si mesmo», ou aquele cuja manifestação passa necessariamente por uma alteridade irredutível. A interpretação de Lacan segue aqui um pressuposto segundo o qual a arte é históricamente (e pós-kantianamente) dotada de uma função «ontológica».

7. Desde Kant que a metafísica, enquanto ontologia, deixa de ter acesso ao ser «em si mesmo». A «fenomenologia» distingue-se, por aí, de uma forma elementar, de toda «ontologia» anterior. Ela representa, como sublinha Manuel Maria Carrilho, um primeiro momento de suspeita. Esse pressuposto «ontológico» (em A Origem da Obra de Arte, por exemplo, a arte é dada como o «pôr em obra da verdade», que é verdade do ser) não seria, em Lacan, pensado a propósito da arte, simplesmente dogmático. (De resto, Lacan é um leitor atento de Heidegger, como bem se sabe).

Esse pressuposto poderia ser apoiado também numa leitura que percorresse, mais recente e transversalmente, tudo o que se pensou, a propósito da arte, desde Kant e, a partir dele, tudo o que é explicitamente assumido por vários autores. Jean-Marie Schaeffer dirá, em L'Art à l'age moderne: l'esthétique et la philosphie de l'art du XVIII siècle à nos jours, que lê o que durante esse período se foi escrevendo (Hegel, Schopenhaur, Schlegel, Schelling, Novalis, Nietzsche, Heidegger, para não mencionar os artistas e, em particular, os do século XX):

«A pesquisa dos constituintes fundamentais ou últimos da arte não é no entanto senão um aspecto - aliás activo sobretudo nas artes plásticas - da resposta à questão: «Que é a arte?» De modo mais fundamental pensou-se encontrar a sua essência num estatuto cognitivo que, não apenas lhe seria específico, mas sobretudo dela faria simultaneamente o saber fundamental e o saber dos fundamentos: a arte, dizem-nos, é um conhecimento extático, a revelação de verdades últimas, inacessíveis às actividades cognitivas profanas; ou: ela é uma experiência transcendental que funda o ser-no-mundo do homem; ou: a apresentação do irrepresentável; - e assim por diante. A tese, sob todas as suas formas e formulações, das mais profundas às mais triviais, implica uma sacralização da arte, oposta, enquanto saber de ordem ontológica, às outras outras actividades humanas consideradas como alienadas, deficientes ou inautênticas (SCHAEFFER, Jean-Louis, L'art de l'âge moderne: l'esthétique et de la philosophie de l'art du XVIII siècle à nous jours, Paris, Gallimard, 1992, p. 17).

A leitura de Schaeffer assenta na seguinte posição: o que está hoje em crise é, antes de mais, o discurso sobre a arte - na medida em que, depois de Kant, se tornou a ontologia inviável e se procurou compensar essa recaída numa ontologia estética (e já não filosófica) - e não tanto ela mesma. Ora, essa transferência da ontologia para o estético é ainda uma extensão do mesmo discurso que Kant pôs em crise.

Ela agora recorre, desta vez por intermédio de uma apropriação da doutrina kantiana do sublime, que apenas se pode situar ao nível da natureza, e já não do juízo do gosto. O que, ao mesmo tempo, decretará, para Schaeffer, um fim da «estética». Numa linha de pensamento afim, embora desconstrutivamente crítico da ontologia, e uma vez salvaguardadas as diferenças, a arte é para Jacques Derrida um lugar de heteronomia e de segredo sem fundo:

«Na dobra [pli] desse momento abraâmico ou ibraímico redobrado pelo Evangelho entre as duas outras «religiões do livro», na redobra [ou no recolhimento, repli] desse segredo sem fundo [o de Abrãao e Isaac, pensado por Kierkgaard em Temor e Tremor e relido por Jacques Derrida] anunciar-se-ia a possibilidade da ficção sobrenomeada literatura. A sua possibilidade e não o acontecimento da sua instituição, o seu alojamento estrutural mas nunca ainda o que a põe no Estado [la met en l'État], conferindo-lhe um estatuto sob esse nome - sequência moderna ou velha de apenas alguns séculos. Contrariamente às aparências frequentemente alegadas, a origem identificável desta jovem instituiçãoa literatura» como tal, i. e., pelo modo como hoje a pensamos, enquanto instituição, não é anterior ao século XVIII], como aquela [instituição] de uma figura moderna do Estado democrático, seríamos tentados a tê-la por mais abraâmica do que grega [...]. Se a literatura, a coisa moderna que porta legitimamente esse seu nome, «dessacraliza» ou «seculariza» as Escrituras, a Escritura santa ou sagrada, ela repete, então, pondo-o a nu e no mundo, trazendo-o ao mundo, o sacrifício de Isaac» (DERRIDA, Jacques, Donner la mort, Paris, Galilée, 1999, pp. 149-150; pp. 203-204; cf. uma vez mais PEREIRA, José Paulo, O Exercício da Distância e o Limite do Limite, Lisboa, Vendaval, 2007, p. 99; p. 100)

O pressuposto seria, pois, o de que a situação de divisão, ou de irredutível confronto, entre duas leis, situação que é também a de Abrãao - obrigado pela lei de Deus (Ele ordena-lhe que sacrifique Isaac) a violar a lei dos homens e, por esta última, a desobedecer à de Deus - fornece a estrutura lógica (e agonística) do segredo (ou do segredo do segredo) que nos permitira compreender o incomensurável recolhimento da obra sobre o seu próprio sentido, o afastamento do seu sentido para longe do «si próprio», i. e., sem que essa sua exteriorização possa ser convertível por nenhuma espécie de mensuração.

A «autonomia», pela qual ela se afasta da lei que lhe confere um limite seria, assim, o lugar de uma «heteronomia», de uma outra lei, de um direito ao direito que, sendo-lhe próprio e reconhecido, se não reduz, nunca a uma fórmula. Aproximamo-nos aqui da posição de Irma e da resistência a um discurso tutor que lhe fosse imposto a partir de fora. Um direito consagrador de um direito ao direito, eis a aporia de um direito que contém em si o sedimento da relação com o «todo outro», mas também a sua excepcional condição de possibilidade no tempo.

8. Regressemos, fechada esta curta interpolação, ao dito de Lacan, citado acima. O que o corpo de Cristo representa é, para Lacan, a «diz-mansão» (dit-mension, é o que está no original francês; cf. LACAN, Jacques, Encore 1972-1973: le séminaire - livre XX, Paris, Seuil, 1975, p. 144) da obscenidade, quer dizer, a «diz-mansão» do que está diante, enquanto lugar do Outro. Ora o termo dit-mension, que vemos no original francês reenvia, na mesma língua, simultaneamente, por ressonância paronomástica, não apenas para mansion («mansão»), que se pronuncia da mesma maneira, mas também para mention (menção), igualmente homófono (de que, a nosso ver, a tradução brasileira não se dá conta).

O discurso de Cristo seria então, exemplarmente, não apenas a «mansão» do Outro, mas também um bom exemplo do que não é possível de separar, de forma estanque, entre constativo e performativo, na dimensão do discurso. Ele seria, portanto, o caso (do «intérprete»: como se diz de um músico, ou de um actor) de um discurso onde o «uso» e a «menção» (do «dito») não são dissociáveis. A «diz-mansão» do discurso supõe nele o mesmo «furo» que no sujeito: o que nele fala é já a Voz de Outro. Essa «diz-mansão» é portanto uma dimensão (performativa) do dizer da qual não se pode separar a dimensão constativa da «menção». Vistas as coisas um pouco mais prosaicamente:

O discurso é, no sujeito, «a mansão do Outro», o seu alojamento, o lugar do seu acolhimento.
A casa do seu Ser. A sua «dit-mension» é, simultaneamente, uma «diz-mansão» e uma «diz-menção». O corpo é esse lugar em que a «menção» e a «mansão» da Voz do Outro se inscrevem. A Voz de um ser que atravessa uma mediação infinita, sempre deslocada e deslocadora, e nisso se seculariza... Porque, precisamente, o que nele ressoa só ali, no seu corpo - porque a voz supõe, não apenas uma vibração das cordas vocais, mas também uma pulsionalidade e uma Lei sem a qual não chegaria a haver sequer o que se chama «voz» e que não se reduz ao som, como é sabido - ressoa, no registo indissociável do uso e da menção, por palavras... palavras de quem?

9. Eis uma dupla e irredutível pertença: o seu discurso é exemplarmente de outro, e não apenas um outro discurso que é de Outro. Se regressarmos agora à cena descrita por Jacques Derrida, que nos lê o escrito de Freud, perceber-se-á melhor a injunção e a disjunção do discurso de Freud (as forças que o impelem). O que se sonha é com o outro enquanto (furo, abertura bocal, lugar-do-«dito-mansão»/«menção»), espaço de hospitalidade ou de acolhimento, da incorporação ou da introjecção da sua solução ou resolução, evidentemente.

Mas também se sonha com o seu próprio abismo, a emergir na resistência do outro, à qual o seu discurso de analista, por sua vez, resiste e, no entanto, o seu sonho cede. Ora, Freud nota-o, como acabámos de ver (atitude que fará dele, a par de Heidegger e de Marx, para Derrida, as figuras mais importantes deste século, confome ele diz, nos «Envois» de La carte postale e em Spectres de Marx: cf. PEREIRA, José Paulo, O Exercício da Distância e o Limite do Limite, Lisboa, Vendaval, 2007).

Trata-se na relação analítica, tal como, portanto, em toda a leitura, da dimensão da (boa ou má) abertura que é aí o espaço de um trânsito e de um acolhimento, de uma incorporação do discurso do outro, da aceitação e da apropriação, da incorporação de uma solução. Não há leitura neutra. Na deslocação pressuposta por esse movimento, o corpo-a-corpo é, neste caso, não apenas limite, mas dissolução do limite entre analista e analisanda: ela teria cedido mais cedo à solução analítica porque, afinal, é no seu discurso que o discurso analítico, do lado da sua mais elevada inteligência [a dela, segundo ele] ou do seu pré-conceito, se pré-inscreve mais facilmente.

Não se verificando isso, continua a ser claro que há, do lado do psicanalista, uma proximidade do que se lhe opõe e que igualmente o reinscreve no discurso do seu outro, como recusa. Trata-se, então, de um limite do limite e, nele, de um resto ou de uma restância, que apela à (rest)análise. É, precisamente, onde isso fala (no sonho ou no discurso comum, no discurso da análise ou da «ciência», quer dizer, ainda no corpo), na sua moção pulsional ou na sua mobilidade, na sua «abertura» e no seu deslocamento posicional, que a fala é já fruição, perda de consistência do ego, tomado na sua compleição ou nos seus limites. É o que diria também Lacan: «aí onde isso fala, isso goza» (LACAN, Jacques, op. cit., p. 156). Porque «onde isso fala», fala também «o Outro» que vem ao seu apelo e o procura regular, e que ressoa através do sujeito enquanto furo.





Lawrence Weiner – Statements, 1968.

II. - 1. Se, na cena analítica, essa dissociação (entre Freud e a sua paciente, Irma) se reinscreve num e noutro dos respectivos sujeitos é porque a boca é, ao mesmo tempo, não apenas um limite, mas também a abertura na qualum no outro, nele e, ao mesmo tempo, sem eleos sujeitos ou a sujeição se «instalam», como se poderia dizer, no que toca à linguagem da arte, do que aconteceria no corpo de uma instalação (ver aqui no blogue Recapitulações – o quadro VII: os ascendentes da instalação, a propósito do que nos diz Florence Mèredieu da instalação).

O «corpo» da instalação – aquele que se aproxima do teatro visto como a caixa aberta de um cubo cenográfico ou câmara sensorial é precisamente, em primeiro lugar, o de uma espécie de boca, ou de embocadura que envolve o espectador e o incorpora. Mesmo na sua resistência: uma espécie de quadro que se prolongaria para lá de si mesmo, o de uma escultura côncava que se tornasse no espaço de um habitat e/ou de um habitáculo. Mas também o mesmo se passa na experiência do espectador: o seu corpo abre-se, prolongado pela vista, a um discurso cuja alteridade nele supõe alguma margem de resistência e de indecidibilidade.

O corpo‑instalação – chamemos-lhe assim, para sublinhar a sua abertura e a sua indissociabilidade do seu outro, mesmo na sua resistência – é, não apenas o lugar em que se inscreve essa condensação «polerótica» (palavra construída com polemos e eros) de que nos fala Derrida, mas também o que atravessa toda a leitura e toda a interpretação, toda a representação e toda a «análise». Numa publicação colectiva recente, em Art Since 1900: modernism, antimodernism and postmodernism, Hal Foster, Rosalind Krauss, Yve‑Alain Bois e Benjamin Buchloh lembravam que:

«Se a arte Minimalista reconheceu as condições quer do espaço ambiente quer do sujeito que vê, fê-lo estritamente em termos físicos e perceptuais. Por esta razão a sua base fenomenológica foi posta em questão nos anos setenta e oitenta por alguns artistas e críticos que defenderam que o espaço da arte não é nunca tão neutro e que o sujeito que vê [the viewer] considerado de um modo abstractamente fenomenológico é tendencialmente masculino, branco, e heterossexual. Os praticantes informados pelas teorias feministas, pós-coloniais e queer mobilizaram-se para rebater [pôr a nu a sua insustentação, undercut] esses pressupostos e estabelecer outras formas de espectador [of spectatorship]; este trabalho sobre a representação vis-à-vis a identidade tomou frequentemente a forma da manipulação crítica de imagens dadas, habitualmente fotografias. Todavia, outras práticas – Performance, Video e arte de instalação em particular – continuaram a abertura do corpo e dos seus espaços inaugurada pelo Minimalismo […]. Foi a instalação que atirou tudo para a experiência do espectador, […]». (FOSTER, Hal; KRAUSS, Rosalind; BOIS, Yves-Alain; BUCHLOH, Benjamin H., «The Art of Suture», Art Since 1900: modernism, antimodernism and postmodernism, London, Thames & Hudson, 2004, p. 654 (sublinhados nossos)).



















quinta-feira, 16 de Julho de 2009

A fala dos escritores 1: Mia Couto


















Mia Couto, na Biblioteca de Faro


Ouvindo há poucos dias Mia Couto na Biblioteca Municipal de Faro, na sessão de lançamento do seuJesusalém, questionado acerca da intenção da sua reinvenção vocabular por um dos presentes, não pude deixar de sorrir. Mas não fui apenas eu. Sorrimos todos, da sua irónica e maliciosa esquiva. Eis a sua resposta: «não, não é para chatear os linguistas, como você diz. Nada tenho contra eles. É que eu ouço mal, sabe?»...

Talvez esteja tudo aqui, nesta bela fórmula: a de uma certa, atenta e deslocadora surdez à língua vinda do outro... Ou então a de uma sua escuta que se diria hipermnésica. O que acontece, em Mia Couto, pelas mais diversas vias: a da relação paronomástica, por exemplo, como parece imediatamente perceptível em «pensatempos» ou «jesusalém», etc., onde uma letra cai par dar lugar a outra, desencadeando associações inesperadas: a ideia de um pensamento enraizado no tempo, um pensamento que contém o tempo e, dele grávido e impotente para lhe escapar, a ele permanece preso, pela necessidade que lhe dita ou traz o seu enigma; ou a ideia de um lugar outro, de um espaço inaugural, no qual a relação com o transcendente é, simultaneamente, uma relação com a irredutibilidade da sua distância e onde nada, afinal, se inaugura, porque o começo é uma ideia da história, como não poderia deixar de ser. Mas, em ambos os casos, uma escuta hipermnésica da língua, guiada pelas ressonâncias que a percorrem transversalmente.

Não era Barthes que dizia, em O Prazer do Texto: «A linguagem que falo em mim mesmo não é do meu tempo; está exposta, por natureza, à suspeição ideológica; é pois com ela que tenho de lutar. Escrevo porque não quero as palavras que encontro: por subtracção» (BARTHES, Roland, O Prazer do Texto, trad. de Margarida Barahona, Lisboa, Ed. 70, 1988, p. 82)? Ou Derrida, em O Monolinguismo do Outro: «uma estrutura imanente de promessa ou de desejo, uma espera sem horizonte de espera informa toda a palavra» (DERRIDA, Jacques, O Monolingismo do Outro ou a Prótese da Origem, trad. de Fernanda Bernardo, Porto, Campo das Letras, 2001, p. 35)?

A escrita põe então em jogo o sentido de que não há presentemente uma língua, como nos diz Derrida em O Monolinguismo do Outro, não ser a que, ao escritor, chega vinda do outro. A recusa do escritor situa-se, pois, nesse seu enclave clivado, que é o da impropriedade do dizer comum. A língua não é de ninguém e, ao mesmo tempo, o seu domínio sobre nós, enquanto seus falantes, só passa por nós no momento da sua transformação escrita. Para que esse domínio por nós passe é necessário, no entanto, que nos encontremos, como diz Derrida, sobre o seu limite «inencontrável». O pressentimento da co-extensividade ao outro desse nosso não-domínio da língua que falamos, mas que é a língua que também nos fala, e o apelo que nos vem de uma sua fundamental estruturalidade, a cada instante, põem em jogo a sua subversão pela escrita.

A subversão protagonizada pela escrita supõe nela a afirmação, quer de uma irredutível impropriedade da língua que lhe chega, quer de uma despossessão que é condição constitutiva do sentido, visto ser no processo da sua (re)apropriação que a linguagem e o sujeito se oferecem ao seu devir. Ela só pode ganhar-se a partir de dentro da língua, sobre os limites em que o simbólico se afirma nas coisas, no sujeito e no mundo, e as suas linhas de fronteira se deslocam e (re)cortam.

Eis, portanto, o que nos diria Derrida: que o sujeito que somos se situa, sempre, sobre «o limite inencontrável da língua», que a língua não faz um consigo mesma, e que há o que designa por «monolíngua» - mesmo aqueles que falam diversas línguas são, no fundo, monolingues - mas que, ao mesmo tempo, essa monolíngua não «existe», isto é, não se pode tomá-la de fora. E o escritor percebe-o como ninguém, na singularidade da sua impessoalidade, no momento em que escreve. Pois ele se descobre nem dentro nem fora, mas sobre o seu «limite inencontrável».

Sobre esse limite inencontrável da lei da língua - porque para falar dele era preciso que nele estivéssemos e, na verdade, estar nele é não o encontrar, ou não poder encontrá-lo: tal como estar fora dele: não se pode falar dele a não ser nele - ele apercebe-se, não só de que essa inexistência damonolíngua supõe, não apenas a impossibilidade de a dar como sua, mas também a intuição de que, na verdade, todo o sujeito se articula na historicidade de um movimento pelo qual, na sua escuta, a língua se desdobra num espaço que se descentra de si mesmo.

A sua relação com a língua só pode então ser, quer de inevitável pertença, quer de inevitável excesso. Se ela assume a forma de uma lei, de uma língua da lei, assim como também de uma lei da língua - com os traços ameaçantes da hegemonia colonial: visto que, no interior de qualquer cultura, a sua aprendizagem decorre sempre de uma imposição simbólica, e da colonialidade que a informa - a verdade é que a emancipação parte do seu interior e segue um movimento que a arrasta para fora-de-si.

Nesse aspecto, pressupondo a sua historicidade, a escrita supõe sempre a promessa e o desejo de uma anteprimeira língua, de uma língua mais originária. A promessa, como dirá também Derrida, não é um performativo qualquer, um performativo de entre outros, visto que ele descreve a dimensão própria de todo o falar, e expõe o modo como nele, por um lado, o sujeito se descobre no seu «grau-zero-menos-um»; por outro, a língua caminha, nessa escuta, para o seu exterior absoluto, a partir do que nela há de fantasmaticamente inscrito.

«O monolinguismo do outro tem certamente o rosto e os traços ameaçantes da hegemonia colonial. Mas o que nele permanece inultrapassável, qualquer que seja a necessidade ou a legitimidade de todas as emancipações, é muito simplesmente o «há a língua», um «há a língua que não existe», a saber que não há metalinguagem e que sempre uma língua será chamada a falar da língua – porque esta não existe. Não existe doravante, nunca existe ainda.» (DERRIDA, Jacques, op. cit., p. 102)

Ou ainda:

«A partir do momento em que falo, antes mesmo de formular uma promessa, uma esperança ou um desejo como tais, e aí onde ainda não sei o que me vai acontecer ou o que me espera no fim de uma frase, nem quem, nem o que espera quem ou o quê, já estou nesta promessa ou nesta ameaça – que reúne desde então a língua, a língua ameaçada, prometedora até na ameaça e vice-versa, assim reunida na sua própria disseminação. Não se pode falar de uma língua a não ser nessa língua. Nem que seja pondo-a fora dela mesma (ibidem, p. 36)

E finalmente - quanto ainda a Derrida:

«[...] é preciso escrever no interior, se se pode dizer, das línguas. É preciso apelar a escrita para dentro da língua dada. Para mim isso terá sido, do nascimento até à morte, o francês. [...] Mas esta intimidade desconcertante, este lugar «no interior» do francês, eis que ele não pode deixar de inscrever na relação a si da língua, na sua auto-afecção, se assim se pode dizer, um exterior absoluto, uma zona fora da lei, o enclave clivado de uma referência apenas audível ou legível a esta absolutamente outra anteprimeira língua, a este grau-zero-menos-um da escrita que deixa a sua marca fantasmática «na» dita monolíngua.» (ibidem, pp. 96-97; aqui o negrito corresponde ao meu sublinhado, distinto dos itálicos de Jacques Derrida).

E de novo Roland Barthes: a língua, cujas primeiras verbalizações - como diz Lacan - se iniciam com a mãe (veja-se o seu seminário sobre As Formações do Inconsciente) - antes que a metáfora paterna a estabilize, e a prenda a uma margem estável, ou a aparafuse a um sentido imposto, (pela coação exercida pelo Nom-du-père) - não deixa, para o escritor, de ser o que, em psicanálise, se chama «um objecto», neste caso um objecto fetiche, um objecto substituto do falo «inexistente», e portanto a marca de uma relação que, embora imaginária, se mantém transgressora ou perversamente solta do simbólico.

A relação imaginária com a língua marca-se aqui, como veremos, pelo seu carácter dual ou ambivalente (como ambivalente é, também, segundo Philippe Lacoue-Labarthe, o próprio conceito de imaginário em Lacan) e poder-se-ia descrevê-la como uma relação de dessimbolização (veja-se a descrição que Barthes nos dá de arte, no seu texto sobre a arte pop), ou se quisermos, (com Herbert Marcuse) como de dessublimação.

Tanto uma como outra são imediatamente políticas, na medida em que rompem com a lei que amarra o sujeito a um conceito ou a um lugar, a um Sentido ou a um destino, a uma Vocação ou a uma atribuição. Celebrando o corpo da mãe sob a forma da língua, o escritor exige dele uma exclusiva devoção, supõe nele a presença do que o simbólico lacaniano lhe nega. Por isso o embeleza ou desmembra, o «desfigura», para fazer só seu, suspendendo-o do simbólico que o dá, «hegemonicamente», como a Lei. Eis o que nos diz Barthes:

«Nenhum objecto mantém uma relação constante com o prazer (Lacan, a propósito de Sade). No entanto, para o escritor, esse objecto existe; não é a linguagem, é a língua, a língua materna. O escritor é alguém que brinca com o corpo da mãe (remeto para Pleynet, sobre Lautréamont e sobre Matisse): para o glorificar, para o embelezar, ou para o desmembrar, para o levar até ao limite daquilo que, do corpo, pode ser reconhecido: eu chegaria a fruir com uma desfiguração da língua, e a opinião pública soltaria grandes gritos, pois não quer que se «desfigure a natureza»». (BARTHES, Roland, O Prazer do Texto, op. cit., pp. 78-79)

E uma outra vez:

«No campo intelectual, a escolha política é uma suspensão de linguagem - portanto uma fruição» (ibidem, p. 87).

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Avulsos 16: a fotografia e o impressionismo (R. Krauss; C. Monet; Michael Fried)



















Claude Monet, Femmes au jardin, 1867.

A questão das influências da fotografia na pintura continua hoje actual. Ela permanece em aberto, é um campo de investigação, de descoberta e de polémica. Numa obra verdadeiramente admirável - sobre a questão de O fotográfico - a crítica e ensaísta norte-americana Rosalind Krauss chama-nos a atenção para algumas dessas influências da fotografia, no que foi a arte impressionista.

O capítulo, em que ela se debruça sobre o tema, começa por uma constatação. Ela poder-se-ia resumir da seguinte forma: tendo o impressionismo sido, de entre outras coisas, uma espécie de hino à luz, ele só teria, enquanto tal, sido possível nas circunstâncias históricas próprias do optimismo que caracterizou uma classe burguesa pujante e em ascensão, como a do século XIX.

Contrariamente ao que viria a ser próprio à sensibilidade modernista, que se furtará, cada vez mais acentuadamente, à possibilidade e à esperança da experiência do «prazer estético» (e do belo), o mundo que os impressionistas fixam, tela após tela, nos seus quadros, é um mundo gregário e solar, eufórico, generoso e extrovertido: o mundo das corridas de cavalos, dos banhos e dos bailes, dos pic-nics e dos almoços na relva, é um mundo constantemente celebrado e partilhado.














Renoir, Le dejéneur des canotiers, 1881.

«[...] o mundo para o qual os impressionistas se viraram, aquele do qual eles recolhiam vestígios tela a tela, era segundo parece um mundo sempre extrovertido. O signo do seu gregarismo - que se reencontra nas cenas de almoços e de multidões citadinas, nas corridas ou à beira da água - é o da exterioridade da luz: com o sol, a apor sobre todos esses sujeitos o selo da sua independência. Tudo se passa como se a luz do dia se tivesse tornado no símbolo de tudo o que é exterior, de tudo o que é dado, de tudo o que se diferencia do espaço interior da consciência.» (KRAUSS, Rosalind, «L'impressionisme: le narcisisme de la lumière», Le photographique: pour une théorie des écarts, Paris, Macula, 1990, p.59).

Esse pendor celebratório foi de par com uma cada vez mais acentuada exigência de aproximação directa do pintor aos seus assuntos. O pintor trabalhava em relação directa com os seus assuntos, como se desconfiasse da possibilidade de deles dar conta cabalmente. E, no entanto, essa aproximação viria, na pintura impressionista, a desviá-la progressivamente para uma crescente atenção aos modos da sua descrição. A esse fundamental e solar gregarismo, viriam, por isso, a suceder-se, então, uma dispersão e uma particularização cada vez mais acentuadas.

A consequência disso foi o facto de que a «ilusão referencial», a que a pintura aspirara e cuja prova desejava realizar, se foi fragmentando cada vez mais, tornando visível o gesto do pintor e a materialidade dos seus componentes concretos: depósitos de pigmentos, traçado de golpes de pincel, vazios ou bocados de tela sem pintura, num inacabamento e numa aceleração cada vez maiores, que aproveitava, o quanto podia, as condições atmosféricas em que esse trabalho decorria.

O corpo da pintura emergia como lugar de uma visão particular, como emanação de um sujeito da percepção. E uma «intrusão do estilo» e dos modos de percepção, acabaria então por se constituir numa barreira cada vez maior entre o espectador e a pintura. Ora, é precisamente nesse processo de dispersão e de particularização, em que, ao mesmo tempo, como diz Michael Fried (que autora cita, no seu texto) «a realidade se retira do poder que a pintura tem de representar» que Krauss situa, em vias divergentes, os contactos que abriram a pintura às influências de outros meios e, em particular, da fotografia. E os pintores em que ela a vê são Monet e Degas:

«Há uma dezena de anos, Michael Fried, falando da emergência dessa contradição interna na obra de Manet, caracterizou-a como uma situação «pós-kantiana» na qual, segundo ele, «a realidade se retira do poder que a pintura tem de representar». Mas embora isso descreva efectivamente o que se passou na pintura depois de 1860, não se trata aí de uma explicação suficiente. Que quer dizer essa «retirada da realidade»? E como é que um pintor a ressentiria? [...] a minha intuição leva-me, abordando este tema, a virar-me primeiro para Monet.» (ibidem, p. 60).

Trata-se, com Rosalind Krauss, em primeiro lugar, de Monet (e não ainda, desta vez, de Manet), cujo convívio com a fotografia ganhará uma importância central na sua apreciação. O que Rosalind Krauss procura no seu trabalho é o rasto deixado por certas ilusões e promessas que a fotografia deixara, numa primeira fase do seu trabalho. E no que diz respeito ao pós-kantianismo, observado por Fried, para Rosalind Krauss o que o impressionismo de Monet há-de descobrir, pela intermediação da fotografia, é um certo incomensurável (um certo «sublime», enfim, para falar em termos kantianos) do real. Esse incomensurável revelar-se-á no confronto entre a incapacidade de captação pictórica da realidade e os extraordinários (quase mágicos) sortilégios da sua apreensão fotográfica, que parecia, aos olhos do homem do século XIX, impossível de superar. Ele virá a ser absolutamente decisivo na viragem entretanto operada na obra de Monet.

De resto, de uma forma global, o impacto que esta última teve sobre o homem do século XIX poderia estimar-se pelas observações proferidas aquando da apresentação, por Daguerre, em 1839, na Academia de Ciências, em Paris, do daguerreotipo: «o daguerreotipo não é um instrumento que sirva simplesmente para desenhar a natureza [...] ele dá-lhe o poder de se reproduzir a si mesma». (ibidem, p. 61)

O inglês Fox Talbot, por exemplo, chamava-lhe «o lápis da natureza» e em Paris falava-se dos «desenhos do sol». Diz Rosalind Krauss: «essas palavras traem de facto uma estupefacção daqueles que descobriam que a fotografia revelava a capacidade que a natureza tinha de se reproduzir a si mesma». Era como se a luz, nessa autofecção da natureza, se pudesse dobrar sobre si mesma, sem qualquer mediação auxiliar, para vir a produzir um «desenho levado uma perfeição que a Arte não poderia jamais atingir». (ibidem, p. 61). O prodígio da fotografia passava por aí, por essa perfeição. E acrescenta Rosalind Krauss:

«Sabemos que Daubigny e os outros pintores da escola de Barbizon estavam siderados [medusés] pela fotografia. E demo-nos conta de que eles deveriam disso tirar as consequências. Um ano depois de se fazer a primeira fotografia, Arago inventou o «fotómetro», um medidor de exposição que traria informações desconcertantes [déroutantes]. Quando se o apontava sobre uma mancha de pintura branca e depois sobre uma mancha de pintura negra, o fotómetro registava sobre a sua escala uma diferença de um (para o negro) a vinte e quatro (para o branco). Mas se se visasse a parte mais luminosa do céu, e depois o canto mais sombrio do chão, o instrumento registava um afastamento de um para nove mil.

O que teria consequências muito marcadas:

As lições que era preciso tirar disso eram bastante claras. A gama dos contrastes na natureza utrapassava a da visão humana; ela ia com toda a evidência além das capacidades restritas que a arte tem de a reproduzir. A unidade artificial da pintura, a sua escala virtual de valores - elevada ao branco a partir do fundo bistre, ou descida para o negro - aparecia como o mais desencorajador dos dispositivos. Porque a natureza tinha sido revelada como polarizada, aberta, distendida para fora do alcance do artista.» (ibidem, p. 62).

Ora, daqui resultavam duas espécies de narcisismo. A do Homem, contente consigo mesmo, pelas conquistas técnicas alcançadas, no tempo de uma burguesia triunfante, e o da natureza redobrada sobre si mesma, a dispensá-lo, afinal, da sua mediação. Narcisismo, portanto, já não apenas do homem, mas da natureza volvida sobre si própria, na sua auto-contemplação e na sua auto-afecção e, ao mesmo tempo, aberta sobre uma escala de valores que ultrapassava, em muito, a da finura e do alcance das diferenciações pictóricas.

Que resultaria da tensão entre esses dois narcisismos, o do homem e o da natureza, o segundo a deslocar o primeiro? Que impacto teria a fotografia sobre a pintura impressionista? Ora, a tese de Krauss é precisamente a de que a fotografia ensinaria aos impressionistas «uma outra espécie de narcisismo: logo que ela se debruça sobre aquela água para se mirar, a natureza torna-se estranhamente impenetrável» (ibidem, p. 63). Em que sentido, mais concretamente? O exemplo seria então, como já se disse, o de Monet, fascinado pela ideia de que à pintura caberia captar essa unidade da natureza independente do homem.

Pois, no tocante a Monet, sabe-se que ele se recusava a seguir os conselhos do seu amigo Gustave Courbet, que lhe fazia o elogio da distribuição prévia das zonas sombrias da estrutura espacial do quadro: «como o notava Monet: «Courbet pintava sempre sobre um fundo sombrio, sobre telas preparadas em castanho, um processo cómodo que ele se esforçava por me fazer adoptar»» (ibidem). Assim: «tudo se passava como se, reclamando o contacto directo com o seu assunto, os impressionistas tivessem já dúvidas quanto à realização possível dessa exigência [de realismo]». (ibidem, p. 60)

Para Monet, portanto, o quadro não podia obter-se de uma construção a priori da sua unidade. Esta tinha de ser concebida a partir da observação por contacto directo do pintor com os seus temas. O pintor devia «expor-se» à luz e às circunstâncias próprias do seu contexto pictórico, nessa espécie de prova de contacto (nessa espécie de encontro fotosensível, que o punha em contaco directo com a luz). E a sua pintura, dir-nos-á Rosalind Krauss, reflectiria o efeito de «desestruturação» compositiva que daí resultaria. Femmes au jardin, de 1866-1867, seria disso um exemplo e um eloquente testemunho. Nesse quadro, observa ela, a composição tradicional do quadro é afastada e alguma coisa emerge nele de contrário ao que seria, depois reconhecível como quadro impressionista. Isto:

«A mulher isolada nas profundezas do jardim «flutua» porque Monet não se tinha ainda dado conta de que todos os seus largos planos triangulares [de luz e sombra] aplanados e ricos de valor, deviam estar ancorados na estabilidade securizante do quadro. Se Monet tivesse retirado à direita cerca de trinta centímetros à largura da tela, o vestido da mulher em plano recuado teria sido cortado pelo bordo da pintura. A certeza da sua relação com o bordo vertical do quadro enquanto objecto, teria compensado a incerteza da sua posição no espaço, e nós reconheceríamos como impressionista a composição de Femmes au jardin». (ibidem, pp. 65-66).

Questão, portanto, de enquadramento e de disposição organizativa dos elementos figurativos no interior do quadro. Bem como de estabilização e de ordenação interna das distâncias relativas, no seu interior. A mulher à direita «flutua», segundo Rosalind Krauss, porque desgarrada da sustentação ou do apoio que lhe poderiam oferecer as margens do «quadro», afastada como está dos seus bordos. Que experimentemos olhar o quadro de Monet a preto e branco (como na fotografia) e essa flutuação tornar-se-nos-á ainda mais evidente. Femmes au jardin representaria assim um exemplo de como «a realidade buscada se retirava do poder de representação da pintura», lembrando, em simultâneo, que a postulação, na pintura, daquela relação narcísica da natureza consigo mesma - daquela sua unidade intrínseca - haveria nela de tornar visível a sua incapacidade para captar a realidade que, na fotografia, se retirava para a sua relação de redobro sobre si mesma. Bastava que a pintura, partilhando da nova concepção da realidade, trazida pela máquina fotográfica, seguisse os modos de enquadramento da fotografia para que resultasse nela visível esse fenómeno de «flutuação», ou de desamparo da figura pintada, sobre o seu fundo, que na fotografia não se percebe, e a cuja lógica ela não precisa de submeter-se, dada a perfeição com que reproduz o real.

Pois como logo a seguir ela observa: «mas em 1867, Monet não tinha ainda descoberto esse tipo de unidade por compensação. Ele pensava ainda que, se bem que não a tivesse conhecido e que ele não pudesse realmente vê-la, a natureza possuía uma unidade intrínseca que ele poderia tornar visível [rendre au jour], se ele se obstinasse o suficiente» (ibidem, p. 66). E nisso poderíamos nós ver já a influência da fotografia - a fotografia que trinta anos antes se dizia ser «uma reprodução da natureza por si própria». Monet fôra tomado por um pressuposto que só a fotografia poderia ter trazido consigo: o da existência de uma «unidade intrínseca da natureza».

«O impressionismo de Monet provém do sentimento de que a unidade de uma representação pictórica não pode e não deve ser obtida a priori, pois que não se sabe sobre que a fundar. [...] Pensa-se que o impressionismo é uma arte da cor. Mas ele não o foi nos seus começos. Antes de 1874, Monet era um pintor tonal que estrutura as paisagens pelo jogo do contraste entre brancos e negros. Que ele tenha pintado dessa maneira indica suficientemente o papel essencial desempenhado pela fotografia: a imagem fotográfica e as «verdades» que ela registava formaram as visões de Monet sobre os problemas internos da natureza e da arte. [...Monet] aplicava-se a tirar a lição da quase opacidade da imagem fotográfica.» (ibidem).

Essa «opacidade» ou «ininteligibilidade» da natureza ou do real (em réplica de si mesmo) podiam, portanto, medir-se aqui pelo carácter relativamente desgarrado e «flutuante» da mulher à direita e ao fundo. A que distância estará ela, ao certo, do plano de representação ou, pelo contrário, do fundo? A esse processo pictórico de «compensação», a unidade intrínseca da natureza desconhecê-lo-ia, e a visão fotográfica representaria a descoberta da «opacidade» e da «ininteligibilidade do real». Para se ver melhor em que consiste, consideremos um quadro posterior, em que ele já aparece inscrito. Por exemplo, La Grenouillère, de 1869:

















Monet, La grenouillère, 1869.

Aqui os bordos do quadro sustentam já, ao contrário do que sucedia em Femmes au jardin, todas as formas e a distribuição interna das massas de luz e sombra, na sua organização interna. Monet aprendera a sua lição, quanto à incapacidade da pintura de representar directamente a realidade:

«Todas essas massas são fixadas ao bordo do quadro tão seguramente quanto se se tratasse de lâminas de faca implantadas na madeira tenra do quadro: as canoas e a folhagem postas nos seus ângulos, o longo rectângulo do pontão fixado na parte lateral. A única região «flutuante», uma ilha no meio do rio, não é tratada de modo diferente. Quatro linhas sombrias (duas passarelas e o mergulho vertical de um tronco de árvore e do seu reflexo) destacam-se de cada um dos lados como tensores, amarrando-a à estrutura formal e quase posta em grelha da superfície. Essas formas sombrias, a sua espessura, vêm fixar-se à superfície do quadro literalmente como objectos que se tivesse subtraído ao fluxo do rio que se estende sobre o fundo do quadro. O espaço é reconhecido por naturalmente incompreensível, porque a autonomia do quadro é uma coisa e a unidade da paisagem é afirmada como sendo outra. O tratamento que a composição faz sofrer ao espaço, fá-lo a estranha estenografia dos golpes de pincel sofrer à textura» (ibidem, p. 66).

Estes dois quadros de Monet balizam, no seu percurso, uma mutação, um processo de alteração no interior da sua obra ditado, por um lado, pelo impacto da fotografia e, por outro lado, pelo reconhecimento que ela lhe traria, da opacidade do real, e da impossibilidade da pintura de representar em directo uma realidade (que a fotografia, no entanto, revelara como que redobrada, sem mediação, sobre si própria). Do primeiro para o segundo quadro é, precisamente essa tomada de consciência que se dá. O impressionismo resultava da constatação da impossibilidade do realismo em pintura. Degas teria sido outro dos pintores em quem - de modo mais frequentemente referido - a influência da fotografia se fez sentir. Embora de formas diferentes, que aqui não abordaremos... Limitemo-nos, então, à constatação final de Rosalind Krauss:











À direita: Degas, Après le bain, 1896; à esquerda: foto feita por Degas, 1896.

«O que a fotografia revela a Monet e a Degas é a distância que existe entre a percepção e a realidade. Tendo-se por excluídos do agenciamento intrínseco da natureza, percebida como distanciada e absorvida na sua própria contem-plação, eles fizeram de uma forma de unidade fundada sobre a sua própria introspecção uma solução de substituição. A sua arte tornou-se assim o primeiro capítulo do texto modernista - um texto fundado sobre a compulsão a produzir a arte a partir da organização didáctica da percepção. No fim de contas, o impressionismo não aparece tão afastado assim dos processos formais da arte contemporânea, nem tão estranho assim às suas recaídas narcísicas.» (ibidem, p. 69).

O que a máquina fotográfica começa por mostrar é precisamente aquilo que, na sua imediatidade, não vem à percepção na pintura, a não ser por ajustamento, com a mediação de processos de «compensação». O enquadramento de La Grenouillère é já exemplificativo desses processos de ancoragem e de establização dos elementos da composição a partir do quadro que os contém. E ele diz já a presença mediadora do sujeito da percepção, a compensar a opacidade do reflexo fotográfico.

A partir de 1860, a pintura produzia uma nova equação: a paisagem tornava-se sinónima de plano horizontal, paralelo ao da representação. Um espaço obturado, murado (como salientará Foucault), isto é, tornado superfície, estancado do «efeito de real» próprio de qualquer ilusão de profundidade no espaço. A pintura perdia profundidade para se tornar progressivamente em «quadro», em superfície bidimensional pintada, em pintura-objecto ou em objecto pictórico. E isso, a julgar pelo que nos diz Rosalind Krauss, por reacção ao aparecimento da fotografia, com a qual não poderia competir, na criação da ilusão desse espaço em profundidade, como lhe chama Foucault, mas cuja imitação fôra já o seu desígnio: a profundidade do espaço num quadro de Constable (ver imagem a seguir) contrasta já, e a partir de então cada vez mais, com a visibilidade da espessura pictórica e com a obturação dessa anterior ilusão de profundidade, no espaço da pintura impressionista. É o que acontecerá, de forma extremamente marcada, com a pintura de Édouard Manet (que no entanto, tinha pintado o seu «Almoço na relva» no atelier e não, como o Monet de Femmes au jardin, no exterior...). Se a pintura impressionista «capta o instante», esse instante é sempre, nela, claramente referido à percepção e ao lugar do espectador, e já não a qualquer espécie de eternidade atópica e indiferente à sua apreensão subjectiva.










John Constable, Landscape, 1816.

Se a isso juntarmos a possibilidade de a sua precupação com a experiência e a percepção subjectivas da luz, numa iluminação dos seus motivos que - distinta da iluminação da pintura clássica (codificada, por exemplo, em Caravaggio, onde a luz nunca é frontal, mas antes afastada do espectador, vinda dos lados ou de cima e, assim, interior à própria cena, concebida esta como independente do espectador) - ela própria se inscreve, agora, como relativa ao lugar do espectador...

Se pensarmos esse novo dado, também já como uma reacção aos desafios trazidos pela fotografia (uma reacção, por exemplo, à estreiteza do espectro perceptivo humano das suas diferenciações gradativas de luminância - facto sublinhado pela aparição do fotómetro) talvez possamos começar a compreender que o impressionismo só foi o que foi, em larga medida, por reacção ao advento da fotografia. O mundo solar que recolheu sobre as suas telas acentuava já, hiperbolicamente, a sua própria descoberta da sua insuficiência perceptiva e descriminativa, frente aos recursos da fotografia, para restituir o real.

Onde a fotografia supõe um «ter lá estado» (ou um «ter sido» do que foi testemunhado) como nos diria Roland Barthes (por exemplo, em A Câmara Clara) sem que, todavia, esse «estar lá» ou «ter lá estado» se possa, nela, traduzir num qualquer processo de selecção e combinação de elementos, ou de inscrição de «processos de compensação» que modifiquem o espaço captado, a pintura, pelo contrário, diz o sujeito que vê e compreende, e não apenas o que lá esteve e que lá esteve alguém.

Onde o enquadramento fotográfico pode apreender a circunstância, sem que todavia nessa apreensão faça intervir a «composição» (a fotografia, segundo Roland Barthes, ao contrário da pintura, não é «compositiva»: o seu enquadramento não selecciona nem combina os elementos integrados no espaço que ela restitui - veja-se o exemplo do violinista, em A Câmara Clara), a pintura dir-se-ia que investe, nessa composição, uma intelecção, um ordenamento distributivo, escalar e conotativo, uma «posição» do espectador e um modo de apreensão, uma intenção significativa, investida e, ao mesmo tempo, deslocada, num enunciado singular pela sua subjectividade.

Onde a fotografia fala de «o que foi visto», reportando-se-lhe na sua persistente «opacidade», isto é, sem que nisso invista nenhuma inteligibilidade ou elaboração particular e, portanto, fala do que foi «visível» ou testemunhável, sem que todavia traga consigo uma «teoria» sobre o facto obtuso dessa presença, a pintura fala daquilo que vê aquele que vê e do modo como ele vê.

Quando, mais tarde, os surrealistas vêm a descobrir por intermédio da fotografia, que «o real» é o fiel depositário de um pensamento latente, de um inconsciente poeticamente indiciado pelas suas formas (lembrem-se aqui os casos de Man Ray, Raoul Ubac, Hans Bellmer, Jacques-André Boiffard, Maurice Tabard, etc., salientados por Rosalind Krauss em outras obras), aproximando-se, então, a fotografia, de uma ênfase no enquadramento (e nos processos compositivos ou de transformação conotativa) que o imaginário da pintura conheceu anteriormente, ela trará consigo, no entanto, sobretudo a intuição de que entre sujeito e objecto nenhuma cesura definitiva é possível, e de que entre o «Real» e o «Imaginá-rio» (lacanianos) há uma cumplicidade que recoloca o sujeito contemplador, incessantemente frente à questão do seu «si mesmo» e do Nome das coisas, do Símbolo e da sua Clivagem, do que escapa à sua linguagem de reconhecimento, ou à sua inteligibilidade imediata e frente à questão do inconsciente da linguagem. E, mesmo isso, resulta numa asserção que prenuncia já o «objecto encontrado», que instalaria a crise, depois testemunhada, num pensamento da arte que a teve como coisa do sujeito «criador».

domingo, 31 de Maio de 2009

Recapitulações XIV: A Vénus de Urbino II - «o que Manet viu», na obra de Ticiano (D. Arasse; M. Foucault)














Ticiano, Vénus de Urbino, 1538.

I - Em «A Vénus de Urbino - uma erótica da pintura clássica», tinha-se antecipado aqui a possibilidade de uma relação de apropriação dinâmica entre a pintura de Ticiano e a de Manet. Num certo sentido, a leitura proposta por Daniel Arasse (ver Recapitulações XIII: A Vénus de Urbino - uma erótica da pintura clássica, aqui no blogue) é já motivada por essa construção retroprojectiva, na pintura de Manet, de uma relação transformadora (embora no post anterior, dela não tivéssemos dado conta), de apropriação e deslocação da pintura de Ticiano.

Poderíamos agora avançar que, sendo uma erótica da pintura clássica o que nesse quadro de Ticiano se poderia também ler, isso significava igualmente, na mesma medida, que Manet tivesse ali visto uma espécie de prenúncio daquela redução do espaço em profundidade, que viria a verificar-se na sua pintura e que, de outros modos, por via da relação de confronto com a fotografia, vimos já na pintura de Monet.

Redução de um espaço em profundidade cuja imitação constituira a intenção da pintura clássica até ao século XIX (sob a ilusão da objectividade, do efeito de real que vai de par com invisibilidade do sujeito que vê a si próprio, do sujeito moderno enquanto voyeur, ou enquanto aquele que vê supondo ver sem ser visto, como dizia Wajcman), ao princípio de que a sua representação era antropomórfica.

A sugestão da Vénus de Urbino passava, lembremo-lo, segundo a leitura de Daniel Arasse, pela correlação entre o ponto de fuga no espaço e o sexo no corpo despido (aberto ou exposto ao nosso olhar e em plena consciência desse facto, um vez que a sua personagem central no-lo indica explicitamente, com o gesto da sua mão esquerda): «na Vénus de Urbino, o ponto de fuga é situado na vertical de prumo da mão esquerda da «Vénus» e à altura do seu olho esquerdo» (ARASSE, Daniel, On y voit rien, Paris, Denoël, 2000, p. 148). O que reinscrevia, indirecta e subtilmente, mas inequivocamente, a presença do observador no espaço representado.

Frisando que esse gesto de Ticiano ficaria, na sua obra, como gesto de representação absolutamente isolado (em nenhum quadro posterior o gesto dessa Vénus seria retomado), Daniel Arasse observa: «de qualquer forma não podeis banalizar esse gesto. Ele é de facto excepcional, mesmo no século XVI. Ticiano não o retomou nunca e nenhum outro pintor o fez também. Mesmo em 1538, ele devia ter parecido um pouco ousado, no limite do pornográfico» (ibidem, p. 131).

E Manet «viu ali qualquer coisa que o interessou suficientemente para que ele fizesse a sua Olympia e mesmo para que ele fizesse, alguns anos antes, uma pequena cópia da Vénus de Urbino» (ibidem, p. 136). O que é tão importante quanto o facto de que a sua Olympia contribuiu para o nascimento da modernidade em pintura - é M. Fried, lido por Arasse, quem o diz. O que Manet teria visto no quadro de Ticiano é ali pensado, com efeito, por Daniel Arasse, em função do M. Fried escreve sobre o primeiro - Manet.

«Segundo Fried, nos anos 1860, Manet trabalha sobre a «convenção primordial» da pintura: um quadro é feito para ser olhado. [...] O que diz Fried é que Manet vai transformar o teatro da pintura. Ele renuncia à teatralidade clássica, fundada sobre a colocação em cena da perspectiva e [sobre] o assunto/sujeito [le sujet] literário. Ele procura uma teatralidade fundada somente pela pintura. Segundo Fried, Manet procura fazer quadros que se contentem em apresentar-se ao espectador, em olhá-lo. Ele esforça-se, cito Fried, por fazer de maneira que cada porção da superfície olhe o espectador de frente. É o que ele chama a (ou o) facingness da pintura de Manet. [...] E esse facingness, esse face a face da pintura com os seus espectadores, é a nascença da modernidade. [...] Fried estima também que essa busca encontra um suporte particularmente adaptado no nú erótico clássico. Porque esse nú supõe um sujeito que se oferece, mais ostensivamente que qualquer outro, como objecto para um público masculino.» (ibidem, pp. 162-163).

E acrescenta Arasse:

«Fried não fala dela [da Vénus de Urbino]. Mas, depois do que se acaba de dizer sobre a Vénus de Urbino, ele permite-nos compreender o que Manet pôde ver no quadro e, ao mesmo tempo, compreender melhor o trabalho de Ticiano. [...] Como diz aproximadamente Fried, sem pensar em Ticiano, mas [pensando] em Manet, ela [Olympia] coloca-nos sob o império do olhar, um olhar fixo e dominador. Eis o que Manet viu [na Vénus de Ticiano]. E eis o que ele transformou. Nele [no quadro Olympia] é toda a superfície que olha o espectador de frente: a criada vem para a frente sobre um fundo opaco, o cão adormecido tornou-se num gato. [...] Manet anulou toda a perspectiva. O quadro não tem nenhuma profundidade. Todo ele é superfície, e essa opção é confirmada por uma minúscula transformação. Minúscula e decisiva. Manet desfez cuidadosamente a relação directa que Ticiano havia instalado, entre a posição do nosso olhar, o sexo da mulher e a profundidade. Manet desfez essa condensação» (ibidem, pp. 166-167).















Manet, Olympia, 1863.

Na verdade, Manet pinta igualmente uma superfície vertical, como divisória de fundo, mas desloca-a da vertical do sexo da sua Olympia ligeiramente para a direita, deixando ela, assim, de o «indicar». Ao mesmo tempo, o sentido do seu gesto, que é já outro, em Olympia, modifica-se. Ele tapa, interpõe-se, veda o sexo e, por contraste com a sugestão de Ticiano, esconde, obtura, mura o abismo, fecha o alçapão da pirâmide de projecção do espaço perspéctico, recobre-o com a forma rasa de uma mão que tapa, da mesma forma que o quadro se desdobra todo sobre uma superfície que nele se estende a toda a largura do seu fundo.

A vertical de fundo - irónica e ilusoriamente suposta, por Panofsky, como divisória arquitectónica (no quadro de Ticiano) - age aqui no mesmo sentido descentrador que a sua mão. Essa dupla indicação contrastiva reenvia-nos agora, não para um ponto de fuga corpóreo, mas para a sua própria impossibilidade, para a impossibilidade da sua visibilidade ou da sua captação. Manet:

«desdobrou na superfície [do seu quadro] o que Ticiano havia condensado na articulação entre superfície e profundidade. Ele rebateu a profundidade na superfície. É toda a pintura que nos olha de frente. Não é já a posição do nosso olhar [teoricamente inscrita, como notava Arasse, a propósito do quadro de Ticiano, na sua ordenação compositiva: veja-se «Recapitulações XIII»] que a estrutura interna do quadro determina e a nossa relação com ele. Fried tem razão. Uma forma da modernidade tinha nascido.» E além disso, a mão «[...] já não acaricia o sexo; ela está deposta sobre ele, firmemente, face ao espectador. Olympia olha-nos mas ela não se toca» (ibidem, pp. 167-169).

Eis, portanto, que o gesto da sua mão é, diferentemente do gesto da Vénus de Urbino, o de uma interposição que nos indica, por contraste, sobre o fundo constituído pela memória do quadro de Ticiano - de que Manet executara uma cópia anteriormente - como vedando o acesso ao interior do corpo/espaço em profundidade, a um espaço-corpo em profundidade. Ora, se quiséssemos dar aqui conta das observações de Michel Foucault - embora a sua visão difira, na sua orientação, da de M. Fried - a propósito do que a pintura de Manet traz de novo à pintura, que características poderíamos começar por salientar? É o que veremos a seguir.